09/15/2026 | Press release | Distributed by Public on 09/15/2026 12:32
Miguel Torga escreveu: «Um homem só se descobre a descobrir». Podia ter dito o mesmo sobre a medicina ou ciência. E poderia ter dito o mesmo sobre o que esta Fundação faz, há quase duas décadas, edição após edição, com este prémio. Descobrir. É essa a palavra que define o que aqui celebramos neste final de tarde.
Dirijo-me em primeiro lugar à Dra. Leonor Beleza, para agradecer, na pessoa da sua Presidente, à Fundação Champalimaud, por tudo o que esta casa tem feito, ao longo de duas décadas, em prol da ciência e da saúde dos portugueses, nos mais diversos domínios, da investigação fundamental à prática clínica, do apoio à comunidade científica ao acompanhamento direto de milhares de doentes.
É um privilégio estar hoje aqui, neste que é, indiscutivelmente, um centro de referência mundial. É, assim, com particular honra que participo nesta cerimónia, num dia que a Fundação escolhe, todos os anos, para celebrar o que melhor sabe fazer: reconhecer a visão, no sentido mais literal e no sentido mais amplo da palavra.
Estamos neste espaço juntos, para atribuir um prémio que recompensa os resultados obtidos no campo da medicina e da visão, mas, também, para relembrar a visão prospetiva de António Champalimaud e da sua decisão de apoiar a investigação de nível mundial.
Duas décadas passadas, a instituição que nos recebe transformou-se num ponto de encontro e de trabalho cooperativo entre os melhores cientistas e os melhores médicos do mundo, ao serviço de uma só causa: a melhoria da saúde das pessoas.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Permitam-me, agora, que aluda aos vencedores da edição deste ano.
O Prémio António Champalimaud de Visão 2026 distingue Botond Roska, diretor fundador do Instituto de Oftalmologia Molecular e Clínica de Basileia, na Suíça, e José-Alain Sahel, da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos, e diretor fundador do Institut de la Vision, em Paris.
Falamos de dois médicos-cientistas que, ao longo de mais de duas décadas, a título individual e em intensa colaboração, mudaram aquilo que se julgava impossível na restauração da visão.
Em todo o mundo, 43 milhões de pessoas são cegas e 295 milhões vivem com deficiência visual, muitas vítimas de doenças da retina e de degenerescência macular, para as quais quase não existiam tratamentos capazes de devolver função visual perdida.
Os Drs. Roska e Sahel decidiram que essa fatalidade não tinha de ser definitiva.
Aos dois laureados, o nosso profundo reconhecimento e a nossa admiração. O vosso trabalho é a prova de que a chamada investigação translacional, aquela que não separa o laboratório da cabeceira do doente, é o caminho mais direto entre a descoberta científica e a devolução da esperança.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
A Fundação Champalimaud é um local de referência mundial para os investigadores. É, igualmente, um espaço de referência para os médicos que aqui trabalham e para todos os portugueses que aqui são seguidos.
A Fundação Champalimaud segue uma visão simultaneamente simples e radical: a investigação de fusão. A prática de manter lado a lado cientistas e médicos.
O caminho de duas décadas que hoje celebramos é produto dessa fusão levada às últimas consequências: ciência fundamental e prática clínica a caminharem juntas até chegarem ao doente.
Mas há uma segunda fusão, menos visível, sem a qual nada seria possível.
É a fusão entre a visão original do fundador, António Champalimaud, e a gestão rigorosa que soube multiplicar o seu legado ao longo dos anos. Juntando património e financiamento competitivo conquistado junto de fundos nacionais, internacionais e da União Europeia. Sem esquecer, obviamente, a capacidade demonstrada de atrair a generosidade de novos filantropos que decidiram, também eles, aliar vontades com a Fundação.
É esta tripla fusão de capitais e de vontades que sustenta, ano após ano, a excelência dos investigadores e dos profissionais de saúde que aqui trabalham.
Mas nada disto, nem os edifícios, nem os capitais, nem os prémios que aqui entregamos, fariam qualquer sentido sem aquele que é, desde sempre, a primeira e a última razão de ser desta Fundação: o doente. Toda a excelência científica desta casa não é um fim em si mesma, é um meio ao serviço de quem espera, algures, por uma resposta. As pessoas.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Comemora-se hoje, dia 15 de setembro, o aniversário dos 47 anos do Serviço Nacional de Saúde.
Falei de António Champalimaud. Permitam-me agora que fale de um outro António: António Arnaut, o jurista e político que desenhou o SNS, ancorado na convicção de que a dignidade e o desenvolvimento de um país se medem, também, pela saúde dos seus cidadãos.
Ambos tiveram a coragem de pensar para além do seu próprio tempo, de construir obras cujos frutos sabiam, à partida, que não veriam completos.
A investigação científica, a saúde e a democracia são, afinal, a mesma causa vista de três ângulos diferentes.
Não há ciência de excelência, sem instituições que a sustentem.
Não há saúde ao alcance de todos, sem um sistema público que a garanta.
Não há democracia plena, sem que o direito à saúde seja, de facto, universal.
É essa a marca das pessoas que fazem a diferença. As pessoas, cujos sonhos não se extinguem, antes ganham vida própria e continuam a multiplicar-se muito depois de os seus criadores partirem.
O Serviço Nacional de Saúde é uma das grandes realizações da democracia portuguesa, porque nasceu de um princípio profundamente democrático - o de que a saúde é um direito de todos e não um privilégio de alguns. Garantir cuidados de saúde a cada cidadão, independentemente dos seus recursos, é concretizar na vida quotidiana os valores da igualdade, da dignidade e da solidariedade que a democracia consagra.
A democracia não se mede apenas pelo direito de votar: mede-se também pela capacidade de transformar liberdade e igualdade em condições concretas de vida para as pessoas.
O Serviço Nacional de Saúde continua, 47 anos depois, a cuidar de milhões de portugueses. É dever de todos melhorar uma das maiores conquistas da democracia portuguesa.
É esse o sentido do pacto para a saúde que lancei no início do meu mandato e para o qual é necessário canalizar todas as energias.
Uma democracia forte precisa de um SNS que promova o acesso à saúde a tempo e horas.
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Há doenças que ainda não têm solução. Há formas de cegueira que a ciência ainda não consegue curar. Há comunidades no mundo onde a privação da visão continua a ser uma sentença de exclusão e de pobreza.
Ninguém aqui o ignora. E é exatamente por isso que estamos aqui.
Não para celebrar uma vitória final, mas para celebrar a coragem de continuar, de investigar o que ainda não se sabe, de chegar onde ainda não se chegou, de recusar a resignação perante o que ainda não tem resposta.
António Lobo Antunes, médico e escritor português que perdemos este ano, disse que: «No fundo, a coragem é apenas uma forma de elegância».
É isso que nos une nesta cerimónia. Não a certeza de vencer. A elegância de não desistir.
Mas há uma condição para que essa coragem dê frutos. Uma condição que a história da medicina confirma em cada avanço significativo: a de que não podemos fazer nada sozinhos.
Que a divisão nos enfraquece. Que a união, entre investigadores, entre instituições, entre países, entre saberes, nos torna mais fortes do que qualquer um de nós seria capaz de ser individualmente.
Os laços têm de ser límpidos, generosos, leais. Como Namora nos ensinou. E quando o são, quando a ciência se une à empatia, quando a investigação se une à ação no terreno, quando Portugal se une ao mundo, então descobrimos, como Torga dizia, quem somos. E o que somos capazes de fazer.
A todos os que aqui se juntaram, representantes da Fundação, investigadores, médicos, parceiros, financiadores e amigos desta casa, obrigado por continuarem a acreditar que a ciência, quando feita com rigor e com generosidade, é a forma mais concreta de esperança que podemos oferecer aos outros.
Que este 15 de setembro nos lembre, sempre, que investigar, curar e cuidar são a mesma causa.
Muito obrigado.