Presidency of the Portuguese Republic

06/15/2026 | Press release | Distributed by Public on 06/15/2026 11:30

Intervenção na Sessão de encerramento da Grande Conferência Anual do Diário de Notícias

Em primeiro lugar, uma palavra de reconhecimento à Fundação Champalimaud. Doutora Leonor Beleza, quero elogiar o trabalho que fazem aqui, a aposta na saúde e na inovação. A Fundação é um bom exemplo, a vários níveis. De filantropia, de inovação e de procura de soluções para os portugueses.

Se me permitirem, começo com uma história pessoal.

Aos 15 anos de idade, com mais três primos, criámos um jornal chamado A Verdade. Notícias e histórias de Penamacor contadas em três páginas A4, escritas numa máquina Royal. Alguns anos depois, iniciei-me na rádio, num programa da então Rádio Comercial dedicado aos jovens universitários.

Foram duas aventuras. Dois processos de procura de intervenção cívica.

Criar ou fazer parte de um órgão de comunicação era, então, difícil. Cinquenta anos depois, a realidade mudou completamente.

Em meio século, talvez duas gerações, quase nada é comparável no universo dos meios de comunicação social.

O acesso, os modos de produção, a difusão, os protagonistas, a linguagem. O paradigma é totalmente diferente. Podíamos ser levados a pensar que esta evolução se traduziu em mais e melhores meios de comunicação social.

Sei que a resposta está no condicional e é condicionada pela experiência de cada um de nós.

Mas há uma conclusão que julgo unânime: perdeu-se autonomia, criaram-se redes transnacionais de influência e de negócio, e o que a tecnologia ajudou a simplificar fica muito aquém da complexidade de uma estrutura que precisa de garantir a sua sobrevivência económica com patamares aceitáveis de qualidade.

A referência à minha envolvência no universo dos media é, em primeiro lugar, uma homenagem.

Uma homenagem a todos os que diariamente procuram contribuir para uma sociedade mais informada e plural.

Com o stress característico da profissão aliado à criatividade dos contadores de histórias. Através da palavra escrita ou dita, pela imagem fixa ou em movimento.

Uma homenagem aos atuais trabalhadores da comunicação social, mas também a todos os que, no passado, contribuíram para um legado que durante décadas ajudou a fortalecer um dos pilares da nossa liberdade.

E a homenagem é, em particular, para todos os que fazem o Diário de Notícias, na sua versão impressa ou digital.

Sei que há ainda o projeto do arquivo do DN. Espero que seja uma iniciativa de sucesso e um forte contributo para a preservação de um importante património nacional.

Um jornal com mais de século e meio de história não é apenas uma empresa de comunicação. É uma parte da memória coletiva deste país.

Mas há um segundo motivo para ter começado pelos media. É que esta atividade, de forte alcance social e cultural, com estatuto reconhecido, até constitucional, sofreu em meio século uma alteração tão profunda que nos serve de aviso: o adquirido de hoje, amanhã, pode ser totalmente diferente.

Senhoras e Senhores,

É precisamente sobre essa velocidade e sentido da mudança que quero refletir convosco.

A revolução digital ganha estádios de desenvolvimento que, em alguns momentos, como no presente com a inteligência artificial, assumimos como uma nova revolução dentro da revolução.

Não uma transição, mas uma sucessão de ruturas. Novos desafios que se sucedem.

Se há resposta, quase sempre chega atrasada. E quando chega, já nos confrontamos com o desafio seguinte.

No extremo, como assinala o Papa Leão XIV na sua encíclica, o que está em causa pode ser a própria dignidade humana.

Quando a eficiência se torna a medida de todo o valor, o ser humano arrisca pensar-se como um recurso a otimizar, em vez de uma pessoa chamada à relação com os outros.

A este contexto de perplexidade junta-se a fúria da Natureza contra os atentados que diariamente continuamos a fazer ao meio ambiente. As tempestades que este ano fustigaram o Centro do nosso país não foram um acidente meteorológico. Foram um aviso. O amanhã climático já chegou.

E, como se não bastasse, há a disrupção da ordem internacional.

A permanente violação das regras de entendimento.

A força a suplantar o direito.

Ética, valores e regras são palavras de um léxico que alguns querem esquecido.

O cidadão comum sente receios. Alguns responsáveis políticos interpretam os sinais de alarme. Cientistas interrogam-se sobre os efeitos das suas próprias inovações. Empresários vigiam religiosamente as novas tendências, porque a mudança é vertiginosa, pode ser uma oportunidade ou a falência.

É este o tempo em que vivemos. E é sobre ele que proponho duas reflexões.

Senhoras e Senhores,

A primeira reflexão é sobre a ordem internacional. Na verdade, sobre o que dela resta.

A guerra regressou ao continente europeu com a agressão russa à Ucrânia.

O Médio Oriente vive ciclos de violência que esmagam populações civis e desafiam a consciência da humanidade. No continente africano, em algumas regiões, nem temos informação real da quase permanente violação da dignidade humana.

A rivalidade entre os Estados Unidos e a China estrutura, cada vez mais, todas as outras relações internacionais. Do comércio à tecnologia, das terras raras aos cabos submarinos.

O que estas realidades têm em comum é a erosão de um princípio que julgávamos adquirido: o de que as relações entre Estados se regem por regras, não apenas pela força.

A ordem construída no pós-guerra, das Nações Unidas, dos tratados, do direito internacional, está a ser testada como nunca o foi nas últimas oito décadas.

É neste contexto que saúdo o acordo alcançado entre os Estados Unidos da América e o Irão, sublinhando a importância do diálogo e da diplomacia na resolução pacífica dos conflitos internacionais.

Num momento marcado por elevadas tensões geopolíticas, este entendimento representa um sinal claro de que a negociação, o compromisso e o respeito mútuo continuam a ser os caminhos mais eficazes para promover a estabilidade, a segurança e a paz entre os povos.

Reafirmo a convicção de que os desafios internacionais devem ser enfrentados através de soluções políticas e diplomáticas, rejeitando a escalada da confrontação e privilegiando sempre a cooperação internacional e o respeito pelo direito internacional e pela Carta das Nações Unidas.

Portugal continuará empenhado na defesa do multilateralismo e de uma ordem internacional assente no diálogo, na paz e na resolução pacífica das divergências entre Estados e agradeço os esforços dos mediadores.

A segunda reflexão é sobre a tecnologia, a inteligência artificial e a cibersegurança.

Já todos antecipamos que a inteligência artificial vai transformar o trabalho, a produção, a distribuição do valor e a própria natureza da competição entre economias.

Podemos até questionar a natureza de empresas-estado devido ao poder e influência que alcançaram, num contexto de total autonomia, sem qualquer regulação.

O alcance desta permanente inovação tecnológica remete-nos também para a constatação de que os países que souberem integrar estas tecnologias nas suas empresas e na sociedade sairão mais fortes. Os outros, ficam na fila do supermercado. Países com o estatuto de um vulgar consumidor.

No meu entender, este é um dos motivos porque Portugal e a União Europeia não podem ter uma atitude passiva. Não podem esperar anos para avançarem com um plano que visa recuperar anos de atraso. Com alguma ironia, é paradoxal a agilidade europeia, num mundo cuja velocidade é vertiginosa. Parece que ainda não saiu do mundo analógico.

A questão tecnológica não é apenas económica. É também política e civilizacional.

Por um lado, está associada e agudiza os efeitos das mudanças no relacionamento entre os Estados. A ausência de regras e convénios pode ser um contexto fértil para a proliferação de novos instrumentos e redes tecnológicas com estratégias ofensivas. Cujo efeito final é ampliar o poder dos mais fortes e anular qualquer veleidade de regulação.

Por outro lado, vivemos numa era em que algoritmos influenciam as nossas escolhas.

Talvez, mais grave, a desinformação é produzida em escala industrial e personalizada à medida de cada cidadão.

Esta é também a era em que a cibersegurança deixou de ser um tema técnico para se tornar uma dimensão central da soberania dos Estados.

As infraestruturas críticas, as redes de comunicação, os próprios processos eleitorais, hoje tudo é vulnerável a ataques de exércitos virtuais.

Todos estes fatores levam-me a concluir que a liberdade, neste contexto, exige transparência, responsabilidade e escrutínio democrático sobre a tecnologia.

Não podemos aceitar que decisões com impacto na vida das pessoas sejam opacas ou incompreensíveis. A tecnologia deve servir o ser humano e não o contrário.

E aqui regresso aos media, porque tudo se relaciona.

Num mundo de desinformação industrial, o jornalismo de qualidade é um pilar crítico da democracia.

Sem jornalismo livre não há escrutínio do poder, não há debate de qualidade, não há cidadãos com a informação de que precisam para decidir bem.

A qualidade da nossa democracia depende, também, da qualidade do jornalismo que se faz. E o país tem de aferir, com seriedade, o que quer fazer, os valores que deseja garantir, para ter um jornalismo livre e plural.

Senhoras e Senhores,

Termino regressando ao princípio. Ao jornal feito numa máquina Royal, há cinquenta anos, em Penamacor.

Chamámos-lhe A Verdade. Era a ambição de quatro adolescentes numa vila da Beira Baixa.

Hoje, olhando para o mundo que descrevi, onde muitos apostam na desinformação, na força contra o direito e na tecnologia sem escrutínio, percebo que aquele título de juventude era, afinal, um programa para a vida.

Porque é isso que está em causa em todas as transformações de que falámos: a verdade.

A verdade dos factos, sem a qual não há debate democrático.

A verdade das regras, sem a qual não há ordem internacional.

A verdade da dignidade humana, sem a qual nenhuma tecnologia merece o nome de progresso.

Permitam-me partilhar a seguinte experiência. Quando cheguei aqui, na preparação deste discurso, fiquei curioso e fui a um Modelo de Linguagem fazer um teste. Escrevi a frase: "conta-me a verdade e só a verdade".

A resposta que obtive foi sincera: "A verdade, sem rodeios: sou um modelo de linguagem. Não sou uma pessoa, não tenho experiência nem uma vida fora desta conversa, e não sei com certeza se tenho algo a que se possa chamar sentimentos ou consciência."

Ter a consciência da verdade, numa forma mais profunda, ontológica, ética, é uma missão do nosso tempo e uma obrigação de todos que, pelo menos até agora, não está ao alcance do silício.

Ter a consciência da verdade é um dever dos jornalistas que a investigam, dos cidadãos que a exigem, dos políticos que lhe devem respeito e das instituições que a devem proteger.

Sem dúvida que Portugal construiu, em cinquenta anos, uma democracia sólida, uma sociedade mais justa e um lugar respeitado no mundo. Em tempos que foram também de incerteza e que exigiram coragem.

É essa coragem que o nosso tempo nos volta a pedir.

Muito obrigado.

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