06/05/2026 | Press release | Archived content
Ameaçados, silenciados e, às vezes, assassinados: os jornalistas que cobrem questões ambientais estão expostos a riscos significativos. Por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho - data que também marca o aniversário do assassinato do jornalista ambiental Dom Phillips na Amazônia brasileira, em 2022 - a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) alerta para as múltiplas ameaças que pesam sobre esses profissionais em todo o mundo e identifica dez obstáculos recorrentes ao seu trabalho. A organização faz um apelo por maior proteção a esses jornalistas e ao direito à informação, condição indispensável para uma ação ambiciosa e eficaz contra as mudanças climáticas e suas consequências.
"A luta contra as mudanças climáticas exige a defesa de uma informação confiável e livre, bem como a proteção daqueles que a produzem apesar dos inúmeros riscos. Não se pode afirmar que se defende o meio ambiente enquanto se permite que os jornalistas que cobrem esses temas sejam ameaçados, assediados e assassinados. Sem liberdade de imprensa, não pode haver uma ação climática digna desse nome.
Enquanto as consequências das mudanças climáticas se multiplicam e os danos ao meio ambiente despertam um interesse crescente do público, ao mesmo tempo em que a desinformação se intensifica, o papel dos jornalistas que tratam desses temas nunca foi tão crucial. No entanto, em todo o mundo, investigar essas questões expõe os profissionais a obstáculos específicos: acesso restrito ao campo, fontes silenciadas, processos judiciais abusivos, violência física e campanhas de assédio. Por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, a RSF destaca dez das principais formas de impedimento que enfraquecem o jornalismo ambiental, ilustrando cada uma delas com exemplos marcantes dos últimos meses.
1. Áreas de acesso proibido
Antes mesmo de tirarem o bloco de anotações ou a câmera da mochila, jornalistas especializados em meio ambiente frequentemente se deparam com um grande obstáculo: o acesso ao local dos fatos. Áreas fechadas, monitoradas ou localizadas em regiões remotas costumam ser inacessíveis para quem busca documentá-las. No oeste de Gana, por exemplo, o correspondente da emissora Channel One TV e da rádio Citi FM, Akwasi Agyei Annim, assim como Henry Fynn Emil e Jacob Adu-Baah, que trabalham respectivamente para Angel TV e ABC News, foram ameaçados, agredidos e impedidos de filmar a exploração ilegal de uma área agrícola por garimpeiros em fevereiro de 2025.
Essa realidade é ainda mais preocupante porque quase dois terços dos recursos naturais do mundo são extraídos em países onde a liberdade de imprensa sofre graves restrições. Em alguns Estados, como Arábia Saudita e China, as áreas de extração são praticamente fechadas aos jornalistas devido às limitações impostas à imprensa. Em outros lugares, são os conflitos armados que tornam o acesso impossível. A República Democrática do Congo (RDC) e diversos países do Sahel ilustram bem essa situação: ricos em recursos naturais, mas devastados pela insegurança, esses territórios tornam o jornalismo ambiental extremamente difícil, quando não impossível.
2. Informações bloqueadas
O acesso à informação constitui outra frente de batalha para os jornalistas ambientais. Logo após retornar à Casa Branca, Donald Trump iniciou um amplo desmonte das informações públicas sobre meio ambiente nos Estados Unidos. No final de janeiro de 2025, milhares de páginas hospedadas nos sites de agências federais, incluindo as da Agência de Proteção Ambiental (EPA), foram removidas. Esse silenciamento de dados de interesse público prejudica o direito à informação, tanto para jornalistas quanto para cidadãos.
As plataformas digitais também podem se tornar instrumentos de censura. Na Índia, uma investigação em vídeo publicada pela Environmental Reporting Collective - uma rede de jornalistas e veículos dedicada a investigações colaborativas sobre crimes ambientais - sobre o deslocamento forçado de uma comunidade dalit relacionado à construção de um centro de dados foi bloqueada no Instagram após uma notificação do governo baseada na Lei de Tecnologia da Informação. Trata-se de uma medida de censura inaceitável.
3. Fontes ameaçadas
O jornalismo ambiental depende amplamente de fontes que, ao aceitarem testemunhar, ficam expostas a diversos riscos de represália. Vários ativistas cambojanos que apareceram em uma reportagem da emissora francesa France 24 - classificada como "informação falsa" pelo Ministério do Meio Ambiente do Camboja - foram presos e posteriormente libertados sob a condição de interromper qualquer contato com jornalistas estrangeiros. O jornalista ambiental britânico Gerald Flynn, que também aparece no documentário, foi colocado em uma "lista negra" desde novembro de 2024, o que, na prática, o impede de retornar ao Camboja.
4. Assédio online
As plataformas digitais tornaram-se verdadeiras ferramentas de intimidação contra jornalistas. Retratada com uniforme russo em montagens fotográficas e acusada de realizar investigações falsas em benefício de Moscou, a jornalista independente ucraniana Olena Mudra foi alvo de uma campanha de difamação online em junho de 2025, após a publicação de várias reportagens sobre um controverso projeto eólico nas montanhas dos Cárpatos, na região da Transcarpátia, no oeste da Ucrânia.
5. Redações vandalizadas
As sedes dos veículos de comunicação também não são poupadas. Em 5 de janeiro de 2026, cerca de cinquenta produtores de ostras incendiaram o portão do jornal francês Midi Libre, em Saint-Jean-de-Védas, no sul da França, depois que o veículo divulgou a proibição da venda de ostras da lagoa de Thau. Diante desses atos de violência, o diretor editorial Olivier Marino lembrou que informar sobre uma proibição sanitária é "um dever de informação e de saúde pública".
6. Assédio judicial
Para silenciar jornalistas, alguns dos envolvidos em reportagens recorrem ao sistema judicial. Os chamados processos SLAPP (ações judiciais abusivas destinadas não a buscar justiça, mas a intimidar profissionais da mídia, esgotá-los financeiramente e desencorajar críticas sobre temas de interesse público) vêm sendo cada vez mais utilizados contra jornalistas que cobrem questões ambientais. Na França, um importante representante do lobby da suinocultura da Bretanha processou o veículo investigativo Splann! após uma reportagem publicada em maio de 2024. O processo acabou sendo anulado um ano depois pela Câmara de Instrução de Rennes, evidenciando o caráter intimidatório desse tipo de ação.
7. Violência física durante manifestações
Ser jornalista e estar claramente identificado como tal já não garante proteção. As detenções durante manifestações têm se multiplicado, inclusive quando se trata da cobertura de questões ambientais. Apesar de possuir carteira profissional de imprensa, o jornalista Sumit Jha foi preso pela polícia no final de março de 2025 enquanto cobria protestos contra a remoção de áreas florestadas no campus da Universidade de Hyderabad, no estado indiano de Telangana.
8. Prisão
Em diversos países, cobrir questões ambientais pode levar diretamente à prisão. Em Mianmar, a documentarista e jornalista Shin Daewe, conhecida por seu trabalho sobre meio ambiente e sobre as consequências da guerra civil, foi presa em outubro de 2023 enquanto trabalhava em um documentário. Acusada de forma abusiva de "auxílio ao terrorismo" pela junta militar, ela foi condenada à prisão perpétua em janeiro de 2024. Posteriormente, a pena foi reduzida para quinze anos de prisão. Segundo familiares, ela foi submetida a repetidos interrogatórios e a atos de tortura durante sua detenção. Após 915 dias encarcerada, foi finalmente libertada em abril de 2026 no âmbito de uma anistia.
9. Ameaças de morte e assassinato
Este 5 de junho marca o quarto aniversário do assassinato do jornalista britânico Dom Phillips e do especialista brasileiro em povos indígenas Bruno Pereira, na Amazônia brasileira. As nove pessoas acusadas pela Polícia Federal desse crime, cometido no Vale do Javari, ainda aguardam julgamento. Na Turquia, o jornalista e documentarista ambiental Hakan Tosun morreu em 13 de outubro de 2025, em Istambul, três dias após sofrer uma agressão de extrema violência. Conhecido por seus documentários sobre meio ambiente, políticas urbanas e movimentos sociais, ele investigava havia anos conflitos ligados ao ordenamento territorial. Em Moçambique, o jornalista Carlitos Cadangue, da emissora privada STV, escapou de uma tentativa de assassinato em 4 de fevereiro de 2026. Havia meses ele documentava atividades ilegais relacionadas à mineração e revelara o suposto envolvimento de diversos atores nesses esquemas.
10. Exposição aos riscos climáticos
Cobrir questões ambientais também significa estar diretamente exposto às consequências das mudanças climáticas. Ciclones, enchentes, incêndios e secas colocam jornalistas em risco no campo e fragilizam redações locais, frequentemente na linha de frente da informação à população. Em Mayotte, o ciclone Chido, que atingiu o arquipélago em dezembro de 2024, devastou as redações locais assim como o restante do território, paralisando por muito tempo a cobertura da tragédia.
No Brasil, as enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul na primavera de 2024 também atingiram duramente os meios de comunicação da região: redações inundadas, equipamentos danificados e reportagens realizadas em condições perigosas. Segundo a RSF, mais de 70% dos veículos de comunicação do estado não possuíam nenhum plano de emergência.
Para ajudar os profissionais da informação a lidar melhor com esses riscos, a RSF publicou um guia prático dedicado à cobertura da crise climática e de suas consequências, estruturado em cinco eixos, que vão da resiliência climática às recomendações de segurança e de equipamentos para atuação em campo.