06/10/2026 | Press release | Distributed by Public on 06/10/2026 05:23
"Heróis do mar".
É assim que começa o nosso hino nacional. Não o esqueçamos. Sobretudo hoje, que celebramos nos Açores o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas espalhadas por todo o mundo.
Há duas formas de contemplarmos a história do nosso país: olhar para o mar a partir da terra ou olhar para a terra a partir do mar.
Celebramos hoje Luís Vaz de Camões. Sobretudo por reconhecermos a grandeza, universalidade e modernidade da sua obra. Letrado, poeta, militar e viajante correu mundo do qual, foi observador atento. Sofreu tormentas, mas olhou para a nossa história a partir do mar.
No final do Inverno de 1570, dezassete anos depois de ter partido para o Oriente, a nau Santa Clara em que Camões viajava para Lisboa, deixou a ilha de Santa Helena e rumou a norte no Atlântico. O vento de nordeste levou-a a passar entre as ilhas das Flores e do Corvo, depois em direção à Graciosa e à ponta da Serreta aqui na Terceira. Exausto, Camões deve ter avistado com alegria a costa sul desta ilha verde, onde a água límpida corria abundantemente nas ribeiras até ao mar. Não era a terra prometida, mas quase. A nau Santa Clara ancorou na baía de Angra e Camões desembarcou no Cais da Alfândega, subiu a curta ladeira e entrou na Rua Direita nesta cidade.
Em Junho de 1570, Camões chegou, finalmente, à Ribeira das Naus em Lisboa. Regressou como tinha partido: pobre e só. Doente também. O fado inflexível já o acompanhava. A sua vida não seria longa. Mas Camões trazia consigo um tesouro bem mais valioso do que todas as especiarias que tinham entrado no Tejo: o manuscrito de "Os Lusíadas".
Senhor Presidente,
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Este ano, as celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas voltam a ter lugar em Angra do Heroísmo. Esta cidade é uma cidade inovadora. Logo no século XV foi a primeira a ser pensada para ser uma cidade transatlântica. Aqui, mesmo junto ao mar, e com o objetivo de apoiar o projeto geoestratégico dos Descobrimentos, foi criado em 1492 o primeiro hospital dos Açores. Em Angra convergiram durante séculos as rotas de regresso da Ásia, da África e das Américas em direção a Portugal e outros países europeus. Angra foi o ponto de convergência entre continentes e culturas. Naturalmente, o seu centro histórico foi o primeiro em Portugal a ser classificado como Património Mundial pela UNESCO.
No fundo da baía de Angra estão vestígios arqueológicos de naufrágios que testemunham cinco séculos de navegação no Atlântico. Este é o primeiro e o maior parque arqueológico aquático nacional. E hoje temos de ter isto em conta. Por uma razão muito simples: um país que negligencia a preservação e a valorização do seu património cultural, construirá sempre mal o seu futuro. Sempre.
Os Açores e a Madeira celebram este ano os 50 anos da sua Autonomia. Esta era uma pretensão muito antiga das nossas ilhas, ignoradas ou negligenciadas num país profundamente centralizado em Lisboa que teimava em olhar para o mar a partir da terra. Abril de 1974 tornou, felizmente, essa autonomia possível. E, apesar de todos problemas, que boas autonomias se foram construindo.
Muito foi feito nos Açores e na Madeira desde 1976 para o seu desenvolvimento. A governação de ilhas com dimensões geográficas e demografias muito diferentes será sempre uma tarefa exigente quer ao nível político quer nos deveres da administração pública para com os seus cidadãos. Mas, nestas ilhas tão devotas à irmandade do Espírito Santo, nenhuma pode ficar esquecida.
Precisamos de mais vozes como a de Sidónio Bettencourt, jornalista e radialista, que durante décadas no seu programa "Inter-Ilhas" na rádio Antena 1 - Açores, uniu diariamente um arquipélago com cerca de 600 quilómetros de extensão. Estes não podem, não devem, ser tempos de divisões egoístas e míopes entre ilhas.
Este será um século marítimo. Devemos olhar para a terra novamente a partir do mar. Os Açores e a Madeira continuarão a fazer a ligação entre a Europa, as Américas e África. Precisamos de ter as pessoas e os recursos para garantir a soberania nacional no território português no Atlântico.
Senhor Presidente,
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Uma cortina de medo tem vindo a descer sobre Portugal. O que explica este facto? O que explica também o nosso pessimismo? Provavelmente a consciência de que um longo ciclo histórico iniciado em 1945, após o final da Segunda Guerra Mundial, chegou ao fim nos últimos anos. O futuro será, muito naturalmente, diferente.
Um mundo multilateral e apoiado em instituições internacionais que nos foi altamente benéfico está a desaparecer e a ser substituído por um mundo muito mais hierárquico, complexo e fragmentado. A Grande Ruptura está em curso e estamos presentes na criação de um novo ciclo histórico. Este facto tem dado origem a três tipos de respostas.
A primeira é a invocação do poder e da força para defender interesses e privilégios. Todavia, o seu uso descontrolado provoca sempre uma reação adversa nos outros. Os menos fortes podem não ter muitas cartas. Mas os mais fortes, também não têm todas as cartas. E, algumas vezes, esquecem-se disto.
A segunda resposta é a defesa do multilateralismo. Mas a realidade é que o multilateralismo só é possível e credível quando é capaz de se afirmar face a outros poderes. Sejamos honestos. Sobretudo hoje. O mundo não é um terreno da moral, mas sim político em que o poder é importante. Os princípios éticos também. Especialmente quando são largamente partilhados. Só é possível impor ou manter o que é aceite por muitos. Mas a alteração na distribuição do poder mudará o multilateralismo. O nosso não será necessariamente o dos outros.
Finalmente, temos a defesa de uma nova coligação de potências médias para proteger as partes mais importantes do sistema internacional. Todavia, estas potências continuarão a ter de fazer escolhas e decisões estratégicas. Mas como nestas circunstâncias?
Senhor Presidente,
Minhas Senhoras e meus Senhores,
No dia 22 de junho de 2023, almocei com Leonor Magalhães - uma antiga aluna de Geopolítica e Geoestratégia com quem li Homero e Tucídides no Instituto de Estudos Políticos - na esplanada do Pérola, um pequeno restaurante ao lado da Universidade Católica Portuguesa.
A meio da nossa conversa sob um céu azul, a Leonor fez-me uma pergunta: "Como é que a minha geração aprende a pensar e a participar em escolhas e decisões estratégicas? Nunca tivemos de pensar sobre isto. Como faço isso?" Hoje, aqui, devemos reformular a pergunta da Leonor: Como fazemos isto todos juntos?
Até 2030, teremos de fazer três coisas. Teremos mesmo.
A primeira é reconsiderar o que aprendemos nas últimas décadas: sobretudo que a intuição e a rapidez são mais importantes do que o conhecimento, a experiência e a conceção e execução de uma estratégia nacional portadora de futuro. Não são. Num dia em que celebramos Camões, o poeta letrado de memória prodigiosa que nunca, mas mesmo nunca, improvisou nada, é essencial acentuar a importância do conhecimento histórico para encontrarmos um rumo seguro, ambicioso e otimista para o nosso destino como comunidade política.
A segunda coisa que teremos de fazer é reconhecer que existe um problema cognitivo na perceção dos factos. Como vimos, o ciclo histórico que começou em 1945 e terminou recentemente foi o mais curto, bastante mais curto, do que os anteriores. É possível que a evolução científica e tecnológica e a rapidez no acesso e difusão da informação ajude a explicar este facto. A política internacional foi sempre um sistema dinâmico.
Mas agora, o tempo para as escolhas e decisões parece ser menor do que no passado e a abundância da informação - a boa, mas também a má - contribui para este nosso problema cognitivo de entender o mundo. Como nos preparamos para isto? Como produziremos conhecimento nestas circunstâncias para apoiar o processo de decisão política ao mais alto nível no nosso país?
Finalmente, aceitemos que não nos compete dominar ou compreender todas as marés do mundo até 2030. Devemos é ter a capacidade de compreender atempadamente como é que as sociedades, os ecossistemas científicos e tecnológicos, as linhas de comunicação marítimas, terrestres e aeroespaciais, os centros de recursos, o sistema financeiro internacional e o poder militar estão a mudar e que impacto tudo isto terá em nós.
Só assim estaremos em condições de contribuir para a reinvenção da NATO e do seu pilar europeu. Só assim participaremos ativamente na União Europeia. E, finalmente, só assim poderemos fortalecer e diversificar as nossas relações pelo mundo fora.
Senhor Presidente,
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Coragem é liberdade. Liberdade é coragem. Na Nazaré estão algumas das maiores ondas do mundo. Hugo Vau e Joana Andrade são surfistas. Olham para a terra a partir do mar. Ambos mostraram a Portugal e ao mundo que é possível surfar aquelas ondas enormes. Para tal é necessária muita coragem, treino, uma preparação meticulosa, uma boa avaliação do risco e um vasto ecossistema de apoio. Hoje, milhares de pessoas vão à Nazaré ver os novos heróis e heroínas do mar ultrapassar os seus limites naquelas paredes de mar que rugem com estrondo.
Nos próximos anos, teremos de navegar em ondas semelhantes às da Nazaré. Estas marés da história mudarão novamente o mundo. Este não é o tempo de alimentarmos ilusões sobre as mudanças que estão em curso e as suas consequências. Este não é o tempo de enterrarmos a cabeça na areia e negar os factos. Este é, sim, o tempo de deixarmos para trás o campo de sonhos em que temos vivido.
Somos um país com quase nove séculos de história. Tal deve dar-nos confiança em relação ao futuro. Por razões geográficas, o nosso papel nas guerras continentais europeias foi sempre marginal. Mas fomos - e somos - sempre significativos nas comunicações transatlânticas. A reflexão coletiva e informada foi sempre a grande vantagem das democracias. Sobretudo por afastar mitos do passado e fantasmas do futuro que nos entorpecem.
Até 2030, viveremos tempos de urgência. A desordem e a ignorância são os nossos principais inimigos. Temos aliados na Europa, Américas, Ásia e n Oceânia com quem partilhamos valores, interesses e memórias históricas? Claro que sim. Mas, tal como Camões e os surfistas na Nazaré, dependeremos primeiro de nós. Teremos de estar atentos aos nossos aliados e adversários. Uma nação livre não deve ter medo. Não deve. Deve é estar prevenida e preparada.
Heroínas e heróis do mar, o amanhã não é longe demais. Repito: o amanhã não é longe de mais.