05/28/2026 | Press release | Distributed by Public on 05/28/2026 11:09
Há datas que têm peso próprio. Hoje, 28 de maio, passam exatamente quatro meses sobre as tempestades que assolaram o Centro de Portugal.
Vi a tragédia com os meus próprios olhos, quando percorri algumas das artérias desta cidade, na tarde desse dia 28 de fevereiro. Jamais esquecerei essas imagens de desolação, de destruição e de impotência.
Estar aqui, em Leiria, neste dia, com cerca de mil empresários que não desistiram, que não viraram a cara à luta, é um sinal de esperança.
É sinal da determinação de colocar no passado o lamento e o que se perdeu e concentramos os esforços no futuro.
Felicito o Banco Português de Fomento pela iniciativa das "Conversas com Fomento".
A escolha de Leiria para esta terceira edição tem um significado especial porque a presença das instituições do Estado, só por si, já são uma mensagem, em particular quando as regiões precisam de todo o apoio possível.
Senhoras e Senhores,
Permitam-me uma nota pessoal antes de entrar no essencial. Em junho de 2013 eu defendi a criação de um Banco de Fomento em Portugal. Não vou aqui detalhar a argumentação da proposta, refiro apenas que já na altura me parecia imprescindível.
Como tantas vezes acontece na política, as ideias fazem o seu caminho.
Às vezes demoram anos, mas quando são concretizadas, percebemos porque valeu a pena insistir.
O Banco Português de Fomento é hoje uma realidade que se impõe pelos seus resultados.
No ano passado mobilizou 6,5 mil milhões de euros em financiamento e garantias, apoiou cerca de 17 mil empresas e representou um impacto de 2,2% do PIB nacional.
São números que falam por si.
Mas o que me parece mais relevante do que os números é o que eles representam. A afirmação de que existe em Portugal um instrumento financeiro soberano, ao serviço do desenvolvimento e das empresas.
Um banco que vai onde o mercado não chega, que assume riscos que a banca comercial não pode assumir e que o faz com missão pública e rigor institucional.
É o que os melhores congéneres europeus fazem há décadas. O KfW alemão é o exemplo mais citado. E bem citado.
O CEO do Banco Português de Fomento, Dr. Gonçalo Regalado, afirmou recentemente algo que subscrevo inteiramente: Portugal tem todas as condições para, entre 2020 e 2030, ter a melhor década deste século em resultados, criação de valor e performance se continuarmos a apoiar as empresas e a economia. É uma afirmação ambiciosa e fundamentada no potencial deste país e que, com os instrumentos certos e a vontade certa, pode concretizar.
O novo Fundo Soberano de Portugal, a consolidação da fusão da Sociedade de Garantia Mútua e a execução do PRR, são passos na direção certa.
É um caminho que temos de percorrer com recurso a mais conhecimento e inovação e com condições para que os empresários portugueses tenham mais acesso a capital e tecnologia, designadamente para pequenas e médias empresas.
Senhoras e Senhores,
Permitam-me uma breve incursão pela necessidade de inovação.
A inovação é crucial para o nosso desenvolvimento. É reconhecido que temos talento, ciência e capacidades na indústria. No entanto, falta-nos escala, consistência e velocidade.
Demasiadas iniciativas de inovação ficam circunscritas a uma empresa, a um projeto, a um território. Não se disseminam, não criam massa crítica e não transformam setores. Ou seja, não ganham escala.
Para haver consistência, a inovação tem de fazer parte da cultura organizacional. Bem diferente da situação de muitas empresas portuguesas que inovam intuitivamente e sem capacidade de replicar o sucesso.
Precisamos de passar da inovação como talento individual para a inovação como competência coletiva. A inovação exige uma prática contínua.
Por outro lado, a velocidade do mundo de hoje não tem tempos de espera.
A transformação digital, a inteligência artificial, a biotecnologia, a economia dos dados e muitas outras mudanças profundas que poderia citar, estão a ocorrer a um ritmo que não se compagina com a lentidão das nossas estruturas de decisão. Públicas e privadas. Quem chega tarde perde o lugar.
Necessitamos de maior ligação entre ciência e empresa. Precisamos de construir pontes reais entre o saber que se produz nas nossas instituições académicas e os problemas concretos que as empresas enfrentam todos os dias.
E também precisamos de valorizar os ativos intangíveis.
Se é verdade que hoje é assumido que o valor das empresas reside cada vez mais no conhecimento, nos dados e na capacidade de inovar, a avaliação do setor financeiro ainda não se compagina com este olhar.
Os nossos instrumentos de financiamento foram concebidos para avaliar o que se vê: máquinas, imóveis, stocks.
Deste modo, uma empresa inovadora, com capital humano e processos de Inovação e Desenvolvimento consolidados, pode ter dificuldade em aceder a crédito, simplesmente porque o sistema financeiro não sabe ler o seu valor real. Este problema merece ser reconhecida pelo sistema financeiro e pelas políticas públicas.
É também por isso que o Estado e os empresários têm de caminhar lado a lado, cada um assumindo plenamente as suas responsabilidades.
Senhoras e Senhores,
Há quatro meses, o Centro de Portugal foi atingido por um conjunto de tempestades que deixaram uma marca profunda. Com efeitos devastadores nas infraestruturas, nas empresas e nas famílias.
Praticamente em todas as comunidades.
Os prejuízos estimam-se em 5,3 mil milhões de euros. Uma das principais regiões industriais e exportadoras do país foi duramente fustigada.
Mas há algo que as tempestades não desfizeram: a vontade de reconstruir. E é isso que também vejo nesta sala.
Os números do Banco Português de Fomento, que ao longo do dia nos foram dados a conhecer neste encontro, de certa forma também ajudam a confirmar.
A convicção de que esta é uma região que não se resignou. Não fez baixar os braços aos autarcas, empresários, dirigentes associativos e de cada um de nós.
Os passos já alcançados mostram que o financiamento não se mede apenas pelas linhas aprovadas. Pelo efeito dos números.
Prefiro medir pela fábrica que reabriu. Pelo posto de trabalho que foi preservado. Pela família que não perdeu o rendimento. Pela empresa que resistiu.
É aqui que os números ganham vida. É aqui que o trabalho do Banco Português de Fomento, do Governo, dos autarcas e dos empresários se traduz em impacto real.
Empresários de Leiria e da região Centro,
Sei que muitos de vós estão aqui hoje com questões concretas. Ainda bem, porque esta é uma Conversa, onde também devem ser participantes.
Colocarem as questões do dia a dia de cada um. Desejo que tenham obtido todas as respostas.
Transmiti, em primeira mão, ao Governo e ao Parlamento as conclusões da Presidência Aberta que realizei nesta região.
É um documento que aponta, sobretudo, necessidades. As respostas imediatas e também uma visão de mais longo prazo. Trata-se de um contributo que aponta ao futuro e à necessidade de coletivamente organizarmos melhor os nossos recursos. Foi também nesse sentido que o Governo já apresentou e começou a executar o programa Portugal Transformação Recuperação e Resiliência e que tem no terreno, há vários meses, uma estrutura de missão competente, ativa e atenta.
Porque uma crise desta dimensão resolve-se com o contributo de todos, com reconstrução feita de modo inteligente, edificando melhor do que estava e preparando-nos com mais robustez para enfrentarmos severidades atmosféricas futuras, indesejáveis, mas que podem acontecer.
Reconstruir instalações mais resilientes. Reforçar a autonomia energética das empresas. Tornar as comunicações mais redundantes e mais seguras.
Estas são algumas das lições que as tempestades nos ensinaram e que não podemos ignorar.
O acompanhamento por parte de todas as entidades tem de continuar.
Há muito ainda para fazer.
Acredito que vamos melhorar e com a expetativa de que o Estado estará presente quando for necessário e nos moldes e no tempo em que seja verdadeiramente útil.
Uma expetativa que envolve todos as estruturas do Estado, desde a freguesia ao poder central.
Senhoras e Senhores,
Termino continuando com o olhar no futuro, porque é ai que vale a pena investir o nosso esforço.
O que as tempestades deste ano nos ensinaram, com dureza, é que é fundamental prevenir. Precisamos de integrar a adaptação climática no ordenamento do território. Construir uma cultura de literacia para o risco, nas famílias, nas empresas e nas comunidades. No fundo, construir uma arquitetura estável de proteção contra catástrofes para que, quando a próxima crise chegar, não comecemos do zero.
Estas são tarefas de todos. Do Estado central, das autarquias, das empresas, das famílias, de cada um de nós. Ninguém as consegue cumprir sozinho.
O Estado tem a responsabilidade de as liderar, de criar as condições e garantir que a aprendizagem desta crise se traduz em políticas mais inteligentes e em comunidades mais preparadas.
O Centro de Portugal foi testado. Resistiu. Está a reconstruir-se.
O Banco Português de Fomento é um aliado neste processo e provou nestes quatro meses que pode ser mais do que um instrumento financeiro.
Pode ser um parceiro de confiança nos momentos mais difíceis.
A Gonçalo Regalado e a toda a equipa do Banco Português de Fomento, o meu reconhecimento genuíno pelo que fizeram e pelo que continuam a fazer.
A vós, empresários, que não desistiram, que reinvestiram, que preservaram empregos quando seria mais fácil fechar as portas, o meu respeito e a minha gratidão em nome de Portugal.
Muito obrigado.