10/21/2026 | Press release | Distributed by Public on 10/21/2026 15:24
Um estudo liderado pela pesquisadora Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), foi publicado hoje (21) na revista científica Nature. O artigo, intitulado Amazon carbon emissions driven by human actions amplified by droughts (Emissões de carbono da Amazônia causadas pelas ações humanas e amplificadas pelas secas, em português), é o quarto publicado na revista com Luciana como autora principal e conta também com a participação de outros pesquisadores do INPE, além de pesquisadores nacionais e internacionais. A pesquisa analisou 15 anos de medições aéreas de dióxido de carbono (CO₂) na Amazônia brasileira e identificou que as atividades humanas, especialmente o desmatamento e as queimadas, dominam as emissões de carbono em dois dos três grupos de anos analisados, enquanto as condições climáticas extremas amplificam esses impactos.
O trabalho evidencia o enfraquecimento da capacidade da Amazônia de absorver carbono da atmosfera. A redução da cobertura florestal e a degradação da floresta comprometem o regime de chuvas, elevam as temperaturas e prolongam a estação seca, tornando a vegetação remanescente mais vulnerável à mortalidade de árvores e ao fogo. Nesse cenário, as mudanças climáticas regionais e fenômenos de grande escala, como o El Niño e o aquecimento do Atlântico tropical norte, intensificam os efeitos das atividades humanas sobre a floresta.
QUINZE ANOS DE MEDIÇÕES AÉREAS
Para investigar os fatores que influenciam as emissões de carbono da Amazônia, a equipe utilizou dados coletados entre 2010 e 2024, pelo Laboratório de Gases de Efeito Estufa (LaGEE), do INPE, por meio de voos em aviões de pequeno porte, com medições de CO₂ e CO em quatro localidades representativas da Amazônia brasileira, abrangendo 100% da região estudada. A análise combinou as medições de carbono com dados de desmatamento e queimadas, precipitação, temperatura do ar e indicadores das temperaturas da superfície do mar (ONI) na região equatorial do Oceano Pacífico e no Oceano Atlântico Tropical Norte (TNA).
A série de 15 anos permitiu avaliar a relação entre as emissões de carbono, as atividades humanas e as condições climáticas, considerando também a variabilidade entre as diferentes regiões da Amazônia e entre os anos. Essa abordagem é importante porque as emissões variam significativamente de uma região para outra e de um ano para outro: no período estudado, o balanço de carbono oscilou entre -0,12 e 0,75 petagramas de carbono por ano (PgC/ano).
Em média, ao longo de 15 anos, o balanço de carbono da Amazônia foi de 0,32 PgC/ano, o que equivale a 1,17 bilhão de toneladas de CO₂ por ano. As queimadas constituíram a principal fonte de carbono, com emissões médias de 0,40 PgC/ano, equivalente a 1,47 bilhão de toneladas de CO₂ por ano. A absorção de carbono pela floresta, por sua vez, não foi suficiente para compensar essas emissões, que totalizaram cerca de 300 milhões de toneladas de CO₂ por ano.
TRÊS GRUPOS DE ANOS REVELAM O PESO DAS ATIVIDADES HUMANAS
A análise estatística identificou três grupos de anos com características distintas de precipitação, temperatura, intensidade das atividades humanas e emissões de carbono. A comparação entre eles permitiu separar os efeitos das condições climáticas daqueles associados ao desmatamento e às queimadas.
Grupo 1: anos mais chuvosos e menores emissões
Formado por 2011, 2012, 2013, 2014, 2017 e 2018, esse grupo apresentou as condições climáticas mais favoráveis entre os três. A precipitação média anual foi de 2.413 milímetros, com 135 milímetros no pico da estação seca, entre agosto e outubro, e a temperatura média nesse mesmo período foi de 26,2 °C
Também foram registrados os menores níveis de atividade humana entre os grupos, com desmatamento médio de 6.389 km² e área queimada de 55.115 km² (considerando todos os tipos de vegetação queimados). Nesse conjunto de anos, o balanço de carbono foi de 0,11 PgC/ano, indicando um impacto menor da Amazônia no balanço global de carbono em comparação aos demais grupos.
Grupo 2: aumento do desmatamento e das emissões mesmo em baixo estresse climático
Compreendendo os anos de 2019, 2020, 2021 e 2022, esse grupo apresentou um aumento de 97% no desmatamento (12.580 km²) e de 25% na área queimada (68.747 km²) em relação ao Grupo 1. As emissões de carbono aumentaram em 391%, alcançando um balanço médio de 0,43 PgC/ano, equivalente a aproximadamente 1,58 bilhão de toneladas de CO₂ por ano.
Esse aumento ocorreu em condições de baixo estresse climático em comparação aos demais grupos. A precipitação média anual foi de 2.280 milímetros, com 132 milímetros no pico da estação seca, e a temperatura média neste período foi de 26,3 °C, próxima à registrada no Grupo 1.
O resultado evidencia o peso das atividades humanas sobre as emissões de carbono: mesmo sem as condições de seca extrema observadas em outros anos, o aumento do desmatamento e das queimadas foi acompanhado por uma elevação expressiva das emissões. Nesse grupo, as ações humanas dominaram o balanço de carbono.
Grupo 3: secas extremas amplificam os impactos humanos
O terceiro grupo reúne 2010, 2015, 2016, 2023 e 2024, anos marcados por condições climáticas extremas, associadas a fenômenos como o El Niño e o aquecimento do Atlântico tropical norte.
A precipitação anual média foi de 2.105 milímetros e, no pico da estação seca, de 111 milímetros, com temperatura média de 27,3 °C, a mais alta entre os três grupos. Nesse período, houve um aumento de 92% na área queimada (105.819 km²) e de 22% no desmatamento (7.812 km²). O balanço médio de carbono atingiu 0,49 PgC/ano, equivalente a 1,80 bilhão de toneladas de CO₂ por ano, o maior valor entre os grupos.
Embora as condições climáticas extremas tenham contribuído para agravar as emissões, o estudo identificou que as atividades humanas continuaram a ser o fator dominante. As queimadas, associadas em 98% à ação humana, e o desmatamento atuaram em conjunto com a seca, ampliando os impactos sobre a floresta.
DESMATAMENTO E DEGRADAÇÃO ALTERAM O CLIMA DA AMAZÔNIA
Além de identificar os fatores associados às emissões, a pesquisa evidencia mudanças nas condições climáticas da região ao longo das últimas décadas. Nos últimos 46 anos, o desmatamento e a degradação de longo prazo na Amazônia reduziram a precipitação anual em 8% e durante o pico da estação seca, entre agosto e outubro, em 20%.
No mesmo período, a temperatura média anual aumentou 1,13 °C, enquanto no pico da estação seca, a elevação chegou a 1,81 °C. Essas alterações comprometem as condições necessárias à manutenção da floresta tropical úmida e contribuem para um ciclo de retroalimentação: a perda de vegetação reduz as chuvas e eleva as temperaturas, favorecendo novas queimadas e ampliando a degradação da floresta remanescente.
Os resultados mostram que a atividade humana e o estresse climático não atuam de forma isolada. Ao contrário, seus efeitos se intensificam mutuamente. Por isso, a redução das emissões exige não apenas a diminuição do desmatamento, mas também o combate ao uso do fogo, tanto no manejo da terra quanto em sua utilização como forma de desmatamento, além da recuperação de áreas degradadas.
A pesquisa destaca a urgência de políticas de desmatamento zero, de medidas efetivas para reduzir as queimadas e de programas de restauração florestal. A combinação dessas ações é fundamental para preservar a capacidade da Amazônia de absorver carbono e reduzir o risco de mudanças irreversíveis no funcionamento do ecossistema.
QUARTO ARTIGO DE LUCIANA GATTI, UMA CIENTISTA BRASILEIRA, COMO AUTORA PRINCIPAL NA NATURE
O estudo marca o quarto artigo publicado na Nature com Luciana Gatti como autora principal. Pesquisadora titular do INPE e coordenadora do projeto CARBAM, Luciana tem quase 40 anos de atuação científica e dedica sua trajetória ao estudo das emissões e da absorção de carbono na Amazônia, investigando o papel da floresta no ciclo global do carbono.
A publicação representa um marco na trajetória da pesquisadora e na projeção internacional da ciência brasileira. Ao longo de sua carreira, Luciana Gatti tem contribuído para ampliar o conhecimento sobre os fatores que influenciam o balanço de carbono da Amazônia, produzindo evidências científicas relevantes para a compreensão das mudanças ambientais e para as discussões sobre clima e meio ambiente.
O artigo Amazon carbon emissions driven by human actions amplified by droughts está disponível na página da revista Nature: https://www.nature.com/articles/s41586-026-11168-1