Presidency of the Portuguese Republic

05/27/2026 | Press release | Distributed by Public on 05/27/2026 11:50

Intervenção na abertura da Assembleia Geral da COTEC Portugal - Associação Empresarial para a Inovação

Há vinte e três anos, o Presidente Jorge Sampaio lançou um desafio ao tecido empresarial português: criar uma associação que pusesse a inovação no centro da estratégia das empresas e no coração da agenda do país.

Nasceu assim a COTEC Portugal, em abril de 2003. De certa forma, as razões que estão na origem da associação mantêm-se atuais.

Sou hoje o quarto Presidente da República a assumir a presidência honorária desta instituição.

É uma continuidade que não é apenas simbólica.

É o reconhecimento de que a inovação é uma causa de Estado, que não se pode confinar à vontade de governos, ao termo de uma legislatura ou ao desígnio de um setor. É uma causa permanente e, por ser de interesse nacional, exige a participação de todos.

No meu caso, como Presidente Honorário, assumo este cargo com genuíno entusiasmo. E assumo-o também com uma convicção que quero partilhar desde o início: o Presidente da República será um interlocutor ativo, comprometido com os objetivos que esta associação prossegue e como voz que amplifica a ambição que deseja para Portugal.

Em 17 de junho estarei em Veneza, na COTEC Europa Summit 2026.

O encontro é dedicado ao impacto da inteligência artificial e à mudança de paradigma económico.

É o lugar certo, no momento certo, para afirmar que Portugal não quer ser espetador desta transformação. Quer ser protagonista.

Senhoras e Senhores,

Permitam-me começar por um número que não devemos deixar passar em silêncio.

Portugal tem quarenta mil empresas exportadoras. É um número que exprime uma dimensão considerável e que nos enche de orgulho.

Mas, e levo em conta dados divulgados pelo Diretor-Geral da COTEC, Dr. Jorge Portugal, de entre essas quarenta mil, apenas cinco mil investem em investigação e desenvolvimento. Apenas uma em cada oito tem tecnologia própria, conhecimento incorporado, capacidade de gerar valor a partir do que sabe e não apenas do que faz.

Este número, cinco mil em quarenta mil, é o retrato do desafio que temos pela frente.

No meu entender não devemos perspetivar o número como um fracasso, mas antes, como uma oportunidade. Porque se conseguirmos duplicar, ou triplicar, o número de empresas que investem em Inovação e Desenvolvimento, estamos a mudar a estrutura produtiva do país.

A criar condições para desenvolver uma economia que paga melhores salários, que exporta com mais valor, que fixa talento e que sustenta o Estado social, que os portugueses querem preservar.

Por outro lado, é cada vez mais evidente que a aposta na inovação é condição de soberania económica.

A inovação é evitar a dependência das escolhas tecnológicas de outros. Reduzirmo-nos à mera condição de consumidores do que os outros produzem.

Um país importador do que os outros inventam, seguidor de agendas que não definiu. Um país que se dilui na sua capacidade e identidade.

Portugal não pode aceitar esse lugar.

Senhoras e Senhores,

Julgo que nos dias de hoje é reconhecido que temos talento, ciência e capacidades na indústria. No entanto, como é dito com clareza pela Direção da COTEC, falta-nos escala, consistência e velocidade.

Demasiadas iniciativas de inovação ficam circunscritas a uma empresa, a um projeto, a um território. Não se disseminam, não criam massa crítica e não transformam setores. Ou seja, não ganham escala.

Por outro lado, a inovação exige uma prática contínua.

Para haver consistência, a inovação tem de fazer parte da cultura organizacional. Bem diferente da situação de muitas empresas portuguesas que inovam intuitivamente e sem capacidade de replicar o sucesso.

A maturidade organizacional que a COTEC promove é, precisamente, a passagem da inovação como talento individual para a inovação como competência coletiva.

Por fim, a velocidade do mundo de hoje não tem tempos de espera.

A transformação digital, a inteligência artificial, a biotecnologia, a economia dos dados e muitas outras mudanças profundas que poderia citar, estão a ocorrer a um ritmo que não se compagina com a lentidão das nossas estruturas de decisão. Públicas e privadas. Quem chega tarde perde o lugar.

É sobre estas três dimensões que o Plano de Atividades da COTEC para este ano, e a Estratégia para o ciclo 2026-2028, propõe uma intervenção estruturada e ambiciosa e, espero, contribua para uma agenda de transformação em Portugal.

Quero destacar ainda três dimensões desta agenda de mudança na qual a COTEC pode desempenhar um papel relevante.

A primeira é a ligação entre ciência e empresa.

Portugal tem um sistema científico que cresceu muito nas últimas décadas.

Mas há um problema. A ciência não chega suficientemente às empresas.

A transferência de conhecimento entre universidades, centros de investigação e o tecido produtivo continua a ser um ponto frágil do nosso sistema de inovação. A COTEC tem aqui um papel insubstituível como construtor de pontes reais entre o saber que se produz nas nossas instituições académicas e os problemas concretos que as empresas enfrentam todos os dias.

A segunda dimensão é a valorização dos ativos intangíveis.

Se é verdade que hoje é assumido que o valor das empresas reside cada vez mais no conhecimento, nos dados e na capacidade de inovar, a avaliação do setor financeiro ainda não se compagina com este olhar.

Os nossos instrumentos de financiamento foram concebidos para avaliar o que se vê: máquinas, imóveis, stocks.

Deste modo, uma empresa inovadora, com capital humano e processos de Inovação e Desenvolvimento consolidados, pode ter dificuldade em aceder a crédito, simplesmente porque o sistema financeiro não sabe ler o seu valor real. O estatuto INOVADORA COTEC é uma resposta concreta a este problema e que merece ser reconhecida pelo sistema financeiro e pelas políticas públicas.

A terceira dimensão desta agenda de transformação, que gostaria de destacar, é a coesão territorial.

A inovação em Portugal está demasiado concentrada no litoral, nas grandes cidades e em setores específicos.

Oitenta por cento das empresas que investem em inovação estão concentradas numa faixa estreita do país.

A plataforma de Territórios Inovadores da COTEC, com diagnósticos territoriais, certificação de municípios inovadores e aproximação entre empresas, autarquias e entidades regionais, é uma das apostas deste plano que mais me entusiasma.

Senhoras e Senhores,

Como já mencionei, daqui a dias, estarei na COTEC Europa Summit, em Veneza, onde irei abordar o impacto da inteligência artificial na economia, um tema que não pode ser apenas técnico. É um tema político, social e civilizacional, como foi referenciado esta semana na encíclica papal de Leão XIV.

A inteligência artificial vai transformar o trabalho, a produção, a distribuição do valor e a própria natureza da competição entre economias. Os países que souberem fazer uma integração adequada destas tecnologias nas suas empresas e na sociedade em geral, sairão desta transição mais fortes.

Esta é uma oportunidade que Portugal não pode desperdiçar.

Até porque, o nosso ponto de partida é encorajador. Temos jovens qualificados, centros de investigação reconhecidos internacionalmente e empresas que já estão na vanguarda de setores onde a inteligência artificial é decisiva.

Mais uma vez, como já referi nesta intervenção, o que precisamos é de escala. De transformar casos de sucesso isolados em ecossistemas. De políticas que criem as condições para que o talento português possa crescer em Portugal.

Senhoras e Senhores, Associados da COTEC,

Termino com um apelo.

O Plano de Atividades da COTEC executa-se nas vossas empresas, nos vossos laboratórios, nas vossas equipas.

A COTEC oferece metodologias, plataformas, redes e conhecimento, mas o impulso tem de vir da vontade de cada empresa de se desafiar a si própria.

Portugal precisa de empresas que pensem diferente. Que arrisquem mais. Que acreditem que é possível competir ao mais alto nível.

A inovação não é um fim em si mesmo. É um instrumento ao serviço da produtividade, dos salários, da coesão territorial, da sustentabilidade do Estado social, da qualidade de vida das pessoas.

É ao serviço desse Portugal mais próspero e mais justo que a COTEC existe.

E é a esse Portugal que esta Presidência da República se compromete a servir.

Muito obrigado.

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