08/07/2026 | News release | Distributed by Public on 08/07/2026 10:58
A vida militante de Lejeune Mirhan não cabe numa narrativa linear. Se fosse possível desenhá-la, seria uma colagem de recortes de sociologia, marxismo, pedagogia, sindicalismo, cultura árabe e geopolítica, atados uns aos outros, sem hierarquia. Mais lembrado hoje como apresentador de podcasts, ele foi, com o mesmo fôlego, sociólogo, professor, dirigente partidário e sindical, articulista, escritor e editor. Fazia questão de habitar todas essas frentes ao mesmo tempo.
Lejeune morreu nesta quinta-feira (6), em Campinas (SP), aos 69 anos, vítima de uma parada cardíaca, após semanas de internação na UTI do Hospital Madre Teodora. Nas horas que se seguiram à notícia da morte, dezenas de entidades e personalidades lamentaram publicamente. Ele deixa a esposa, Rosangela Falzoni, com quem era casado desde 2011, e a filha Alice.
A maioria dos que conviveram com ele até meados dos anos 2000 o chamava de "Mato Grosso" - um apelido que remetia a suas origens e à personalidade intensa e generosa que marcaria sua vida. Quando Lejeune Xavier de Carvalho nasceu, em 1956, sua cidade natal, Corumbá, ainda pertencia a Mato Grosso - o estado do Mato Grosso do Sul só seria criado no final da década de 1970. A mãe, Georgeta Mirhan, lhe deu um nome francês - "Le jeune" significa "o jovem". Ele era também sobrinho do promotor José Mirrha, um dos fundadores do PT-MS.
Foi apenas nos anos 2000 que ele passou a assinar como Lejeune Mirhan, recuperando o sobrenome da linha materna, os Malki Mirhan, descendentes de sírios e armênios que se instalaram em Corumbá a partir de 1913. O avô Ibrahim chegou à cidade com 17 anos, viajando no vapor Ladário. Ali, construiu comércio e família.
A avó Aznif era uma armênia nascida em Alepo que fugiu das perseguições do início do século 20 antes de se casar com Ibrahim em Corumbá, em 1924. Lejeune foi criado por esse avô até os 12 anos, ouvindo árabe em casa e histórias das Mil e Uma Noites contadas pela avó. Décadas depois, ele descreveria esses momentos como o alicerce afetivo de sua dedicação posterior à causa árabe e palestina.
Da resistência à ditadura ao sindicalismo
A militância começou em 1975, ainda estudante de Engenharia na FEI, em São Paulo, onde o PCdoB tinha base organizada. Após os anos de repressão mais dura do regime militar, Lejeune ajudou a reconstruir o movimento estudantil na cidade e participou da reorganização do DCE Livre da USP em 1976. No fim daquele ano, o Partido decidiu deslocá-lo para Campinas, a fim de construir organização estudantil nas duas grandes universidades da cidade.
Ele trocou a Engenharia pelas Ciências Sociais, entrou na PUC-Campinas em 1978 e, no ano seguinte, foi eleito presidente do DCE da instituição, cargo que sua chapa manteria por cinco anos seguidos. Foi ali, com o jeito firme e decidido de quem vinha do interior, que ganhou o apelido de "Mato Grosso". Lejeune contava que foi detido várias vezes nesse período por sua atuação política. E contava, ainda mais orgulhoso, que em 1979 ele estava entre os militantes que recepcionaram o histórico líder comunista João Amazonas em seu retorno do exílio.
"Conheci o 'Mato Grosso' quando ambos estudávamos em Piracicaba - e ele nunca passou desapercebido nas lutas que travava e travou por toda a vida", afirmou Nádia Campeão, presidenta em exercício do PCdoB. A dirigente expressou pesar pela morte de seu camarada: "Foi-se um comunista guerreiro, verdadeiramente internacionalista, corajoso e muito inteligente".
A coragem do jovem militante do PCdoB foi ressaltada por outro companheiro de longa data, o jornalista Igor Fuser, que evocou a "histórica passeata" de 5 de maio de 1977. Em plena ditadura, o protesto mobilizou 15 mil estudantes em São Paulo. Ao atravessarem o Viaduto do Chá, "gritando pelas liberdades democráticas", o grupo foi duramente reprimido pela Polícia Militar.
"Bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas contra as primeiras fileiras da passeata. Enquanto muitos recuaram, um estudante corpulento, muito jovem, de barba e óculos, se adiantou, sozinho, e chutou uma das bombas de volta em direção aos policiais", conta Igor. "Era o Lejeune, conhecido na época pelo apelido de 'Mato Grosso'. A cena foi publicada em vários jornais."
Sociólogo e sindicalista
Lejeune se formou em Ciências Sociais pela PUC-Campinas em 1981 e fez ali o mestrado em Filosofia da Educação, entre 1982 e 1984, sob orientação do professor Moacir Gadotti. Em 1995, concluiu especialização em Política Internacional na Escola de Sociologia e Política, orientado pela professora Nancy Valadares de Carvalho. Desde então, mantinha um projeto de doutorado em Sociologia Árabe dedicado à obra do historiador tunisiano Ibn Khaldun, tema que pesquisava desde 1993.
Antes de estrear na universidade, deu aulas em escolas públicas e cursinhos preparatórios, entre 1982 e 1985. Lecionou depois Sociologia, Ciência Política, Métodos e Técnicas de Pesquisa e Sociologia da Comunicação na Universidade Metodista de Piracicaba (Unimep) entre 1986 e 2006. As duas décadas em sala de aula formariam o organizador da categoria dos sociólogos no Brasil. Por mais de quatro décadas, foi protagonista na construção da Sociologia como profissão e como instrumento de compreensão e transformação da realidade. Nunca separou o conhecimento acadêmico da intervenção política e social.
Nesse campo, fundou, ao lado de Florestan Fernandes, o Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo (SINDSESP), do qual foi presidente por duas vezes. Presidiu também a Federação Nacional dos Sociólogos (FNS-B), além de ter sido vice-presidente da Confederação Nacional das Profissões Liberais (CNPL) e um dos fundadores da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil). Mais recentemente, foi dirigente do Sindicato dos Escritores de São Paulo.
Sua militância teve uma das principais marcas na defesa da presença da Sociologia e da Filosofia no ensino médio. Ele liderou a mobilização nacional que resultou na obrigatoriedade dessas disciplinas nas escolas. Posteriormente, publicou a obra Sociologia e Ensino em Debate, referência para o debate sobre o ensino da disciplina. Em O Mercado de Trabalho e a Profissionalização do Sociólogo, mapeou a realidade dos profissionais da área, discutindo formação, regulamentação, organização sindical e novas possibilidades de trabalho.
"Lejeune Mirhan foi uma referência incontornável para a Sociologia brasileira. Ao longo de sua trajetória, uniu produção intelectual de alto nível, compromisso com o ensino e atuação pública firme na defesa da profissão de sociólogo e socióloga", registrou, em nota, o SINDSESP. "Foi também um incansável lutador pela valorização da Sociologia no Brasil, dedicando-se à organização da categoria e à luta pela criação do Conselho Federal de Sociologia."
O atual secretário nacional Sindical do PCdoB, Nivaldo Santana, exaltou o comprometimento de Lejeune com "suas múltiplas áreas de atuação". Segundo Nivaldo, Lejeune "foi dirigente sindical e atuava na militância intersindical. Deixou sua marca também como membro da Comissão Sindical Nacional do PCdoB, período em que acompanhava diversos sindicatos em todo o país. Intelectual com profícua produção, foi um grande mestre nos cursos de formação sindical."
44 anos dedicados à causa palestina
Lejeune começou a contribuir com artigos para a imprensa em 1979. A partir de 1982, passou a se dedicar à causa palestina e ao Oriente Médio. Segundo ele, o ponto de partida foi o massacre de Sabra e Chatila, em setembro daquele ano. Na época, ele fazia mestrado e era candidato a vereador em Campinas.
"Lejeune me inspirou muito ao longo da minha vida", afirma Walid Shuqair, secretário-geral da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal). "Para nós, palestinos e defensores da causa palestina, sua partida possui um significado ainda mais doloroso. Lejeune foi um amigo sincero e um defensor incansável da Palestina, denunciando as injustiças cometidas contra nosso povo e defendendo, com coragem, seu direito à liberdade, à dignidade, à soberania e à autodeterminação."
Após a adesão a essa causa, Lejeune visitou a Palestina, a Síria e o Líbano em missões humanitárias, integrou delegações de solidariedade e fez da denúncia do genocídio uma bandeira que não arriou até o último dia. Era um entusiasta da Cuba socialista, da Venezuela e dos direitos dos povos originários.
Tornou-se também um dos analistas internacionais mais assíduos da mídia alternativa brasileira. Só no Portal Vermelho, foram mais de 300 textos publicados. Seus artigos abordaram temas como imperialismo, crise da hegemonia norte-americana, multipolaridade e os conflitos internacionais sob uma perspectiva crítica.
Autor e coautor de mais de 20 livros, escreveu sobre política internacional e mundo árabe, mas também sobre sociologia geral, educação e conjuntura nacional. Entre os títulos estão E Se Gaza Cair? e Justiça, Paz e Liberdade para o Povo Palestino, ambos pela Editora Anita Garibaldi. Deixou relatos de viagem pela Síria e pelo Líbano, além de um livro em coautoria sobre a hegemonia norte-americana e a luta anti-imperialista.
A relação de Lejeune com os livros não se limitava à escrita. Além de autor de uma extensa obra, também criou, em 2015, a Apparte Editora e estabeleceu parcerias com editoras comprometidas com a divulgação do pensamento crítico. A Editora Anita Garibaldi, pela qual publicou diversos trabalhos, especialmente sobre geopolítica e a causa palestina, destacou que ele foi "um parceiro de primeira hora". Mais que isso: um "querido parceiro de livros e lutas".
Um militante comunista
O presidente do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz), José Reinaldo Carvalho, assinou dois livros com Lejeune no início dos anos 2000 e era seu colega de trabalho no portal Brasil 247. Ele recordou o início da militância estudantil e as intervenções de Lejeune como "polemista nato", que refutava com firmeza as teses conciliadoras com as classes dominantes e o imperialismo. "No debate geopolítico contemporâneo, Lejeune destacou-se por demonstrar, com absoluto rigor científico, que o mundo já se tornou multipolar", declarou José Reinaldo.
Uma nota conjunta publicada pelo PCdoB-SP e pelo PCdoB Campinas caracterizou Lejeune como "um militante aguerrido pelo socialismo, pela revolução e pelo seu partido, e um camarada que a gente não esquecerá". O comunicado destacou ainda sua dedicação recente às lives e aos programas na internet, "levando a todos o pensamento crítico, a solidariedade internacionalista e a defesa intransigente dos povos perseguidos, da Palestina a Cuba, da Venezuela aos povos originários".
Do Mato Grosso do Sul, vieram as palavras dos camaradas Mario Cesar e Elza Fonseca, filho e mãe: "Perdemos o camarada Lejeune Mirhan, corumbaense universal, um amigo querido, um intelectual brilhante, um combatente grandioso da causa proletária, internacionalista, anti-imperialista e revolucionária". O vereador de Campinas Gustavo Petta, do PCdoB, recordou que, em 2022, no centenário do Partido e por iniciativa de seu mandato, Lejeune recebeu o título de cidadão campineiro. "Para nós, restam a memória de sua luta e a força de suas ideias, que seguem eternizadas em cada um de seus livros."
Nos últimos anos, Lejeune foi membro do Conselho Consultivo do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, contribuindo para a reflexão sobre comunicação democrática e enfrentamento à concentração midiática. Para a entidade, sua vida se voltou à "disputa de ideias contra a desinformação e as manipulações da mídia hegemônica".
Ao longo de quase sete décadas, Lejeune Mirhan fez dos livros, das salas de aula, das entidades sindicais, dos jornais, das lives e da militância diferentes formas de uma mesma tarefa: compreender o mundo para ajudar a transformá-lo. Seu legado permanece na vasta obra que produziu, nas gerações que formou e nas causas que escolheu defender até o fim da vida.