Ministry of Foreign Affairs of the Federative Republic of Brazil

03/21/2026 | Press release | Distributed by Public on 03/20/2026 23:12

Intervenção do Senhor Ministro de Estado das Relações Exteriores por ocasião da reunião de Chanceleres da CELAC - Bogotá, 20 de março de 2026

Chanceler Rosa Villavicencio,

Caros colegas,

A América Latina e o Caribe enfrentam uma das conjunturas mais delicadas de sua história.

Temos assistido, nos últimos meses, a episódios que remontam aos piores momentos da ingerência estrangeira em nossa região.

O histórico de interveçõesexternas na América Latina e no Caribe, com os seus nefastos resultados,não deixa dúvida: o retorno a esse passado não é a resposta aos complexos desafios do presente.

Vivemos um tempo que conjuga a imposição de desafios globalizados com a tentação de respostas sectárias.

A migração, o crime transnacional e a mudança do clima são exemplos de desafios compartilhados em nossa regiãoe, em maior escala, em todo o mundo.

As respostas populistas a esses e outros desafiosapresentam, por vezes, promessas sedutoras.

Mas esses não são problemas que se resolvam de forma unilateral.

Exigem abordagem conjunta,não fórmulas prontas.

Exigem concertação de interesses,não imposição de vontades.

Exigem cooperação paciente,não intervençõesmidiáticas.

O Brasil encontra em seu entorno imediato, na América do Sul, a melhor prova de tudo isso.

Nossos países aprenderam, ao longo do tempo, a resolver as suas diferenças pela via da cooperação.

Sabemos, por experiência própria, que o equacionamento negociado das controvérsias é que constrói a paz sólida e longeva.

Como mostra o Mercosul, é possível - sobre a base de valores democráticos - construir instituições que resistem ao teste do tempo e entregam resultados concretos à população, como os recentes acordos de livre comércio com a União Europeia, o EFTA e Singapura.

Menciono aqui o Mercosul - que neste ano de 2026 comemorará 35 anos de existência - para sublinhar como a América Latina e o Caribe têm um histórico original e exitoso de iniciativas de cooperação.

Desde nossa redemocratização, inscrita na Constituição de 1988, orientamo-nos pelosmandamentosconstitucionaisda independência nacional e da integração com a América Latina e o Caribe.

Isso significa - como já frisei na reunião ministerial da CELAC no último dia 4 de janeiro - que, em nosso modo de entender, não há lugar para a criação de protetorados em nossa região.

Tampouco acreditamos que a solução dos problemas passe por qualquer outro tipo de medida coercitiva, inclusive bloqueios unilaterais,de origem extrarregional.

Reitero a posição tradicional do Brasil de crítica e condenação ao bloqueio à República de Cuba e reitero nosso total apoio e solidariedade ao povo cubano.

Uma das maiores conquistas institucionais da América Latina e do Caribe foi, precisamente, a sua constituição em um espaço de paz e cooperação.

Desde o seu estabelecimento, em 2010, esta Comunidade - a CELAC - estabeleceu um foro permanente de cooperação para a nossa região.

Com a Declaração de Havana, em 2014, a CELAC expressou a sua determinação de se erigir em uma zona de paz.

Em uma série de diálogos externos - como o de maio de 2025 com a China(em Pequim), o de novembro do mesmo ano com a União Europeia (em Santa Marta) e o de amanhã com a África -, a CELAC sinalizou a sua vocação universalista para contatos com outros países, regiões e hemisférios.

Com a África, nossa Comunidade deseja construir uma aliança profunda.

O Foro CELAC-África é um importante instrumento para dar maior alcance à voz dessas regiões irmãs do Sul Global.

O Brasil valoriza todo esse legado da CELAC e atuará resolutamente pela sua proteção, com vistas à conservação de um ambiente plural de paz e segurança em seu entorno regional.

Estamos prontos a trabalhar com todos os nossos vizinhos-assim como com atores de todos os outros quadrantesdo mundo- para o rápido encaminhamento de desafios regionais e globais.

Mas o faremos sem adotar teses que relativizem - na América Latina e em qualquer lugar - o direito internacionale a soberania, a começar pela Carta das Nações Unidas, cujo Art. 2º salvaguarda a integridade territorial e a independência política dos Estados.

Senhoras e senhores,

Logros importantes foram alcançados pela CELAC sob a presidência pro tempore colombiana que se encerrará amanhã.

Gostaria de agradecer à Colômbia - e muito especialmente à Chanceler Villavicencio - pela condução dos trabalhos de nossa Comunidade ao longo do último ano.

Durante esse ciclo, aprofundamos o diálogo em temas centrais para nossos países,nasáreasde energia, educação, ensino superior, segurança alimentar, agricultura familiar,cooperação espaciale inovação, para mencionar alguns dos temas que foram tratadosem encontros setoriais.

Nem sempre foi possível, é certo,construir os consensos necessários para posições sobre essas e outras questões.

Mesmo assim, o nosso foro de diálogo é instrumental para sinalizar o compromisso da América Latina e Caribe com a solução pacífica das controvérsias e a não intervenção.

Fortalecer o papel da CELAC como espaço de articulação regional é mais vital do que nunca,e exige um compromisso renovado com a ação coletiva, com foco em temas concretos,de interesse de todos.

Separados, somos mais vulneráveis a ações desagregadoras provenientes de fora de nossa região.

Juntos, fortalecemos as nossas sinergias.

Devemos evitar o esvaziamento dos espaços de articulaçãoentre nossos países - tema sobre o qual o Presidente Lula se referiu com preocupação na Cúpula de Santa Marta.

O acirramento das tensões globais impõe esforços redobrados para seguir construindo uma agenda comum, em benefício de nossas populações.

Ressalto, por outro lado, a importância dos avanços nos diálogos extrarregionaisnesta presidência colombiana, que demonstraram o alcance de nossa projeção regional.

Observo, nesse ponto, que aconsolidação dos diálogos extrarregionais da CELAC é mais necessária do que nunca.

A decisão que espero possamos adotar hoje, de criar um grupo de trabalho para facilitar o seguimento de nossa agenda externa, será fundamental para conferir sentido estratégico a esses diálogos.

Senhoras e senhores,

A América Latina e o Caribe têm uma longa trajetória de compromisso com o multilateralismo e o fortalecimento das Nações Unidas.

Junto com nossos parceiros, podemos contribuir para uma Organização das Nações Unidas mais eficaz e representativa.

Gostaria de destacar, nesse contexto, que a seleção da pessoa que ocupará o cargo de próximo Secretário-Geral das Nações Unidas constituioportunidade singular para reforçar o papel da América Latina e Caribe na Organização.

A CELAC já declarou que este é o momento de a região ocupar novamente esse cargo, após mais de três décadas.

Para o Brasil, é também a hora de uma mulher estar à frente das Nações Unidas.

No início do mês passado, os governos do Brasil, Chile e México apresentaram às Nações Unidas a candidatura de Michelle Bachelet.

Essa candidatura é fortalecida por sua experiência na condução de processos políticos complexos, sua reconhecida capacidade de facilitar o diálogo e seu compromisso com os valores fundamentais das Nações Unidas.

Concluo estas palavras desejando pleno sucesso ao Uruguaina condução da próxima Presidência, na convicção de que seu trabalho continuará a promover consensos e a aprofundar nossas iniciativas regionais.

Reafirmo,mais umavez,o compromisso do Brasil com o fortalecimento da CELACcomo vetor de soberania - e, por essa via, de paz e cooperação - na América Latina e Caribe.

Muito obrigado.

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