03/06/2026 | Press release | Distributed by Public on 03/06/2026 12:16
Para marcar o Dia Internacional da Mulher, a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) pede às autoridades brasileiras que reforcem os mecanismos de proteção e apoiem o fortalecimento das mulheres jornalistas que cobrem questões ambientais na Amazônia, uma região onde o jornalismo ambiental é vital e cada vez mais perigoso. Após a realização de um encontro com essas profissionais nos dias 2 e 3 de março, a RSF destaca que mulheres que cobrem desmatamento, mineração ilegal e conflitos fundiários não enfrentam apenas ameaças em retaliação às suas investigações, mas também são alvo de assédio baseado em gênero.
"Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, a RSF reafirma que não pode haver defesa efetiva da Amazônia sem uma imprensa livre - e que fortalecer as mulheres jornalistas é parte essencial dessa equação. Proteger, dar visibilidade e fomentar as capacidades das mulheres jornalistas na Amazônia é um passo urgente para defender o direito à informação e enfrentar a crise climática. Pedimos às autoridades públicas que ampliem os mecanismos de proteção para jornalistas na Amazônia, combatam a violência de gênero tanto online quanto offline e promovam a sustentabilidade dos veículos de mídia locais.
"Ser jornalista na Amazônia, especialmente mulher jornalista, significa enfrentar interesses poderosos que financiam crimes ambientais e ordenam o assassinato de defensores de direitos humanos e líderes indígenas", afirmou Kátia Brasil, fundadorada agência de notícias independente Amazônia Real, que tem mais de 35 anos de experiência cobrindo questões ambientais na região. "Você está no centro desse conflito. É preciso coragem."
A cobertura ambiental frequentemente desafia poderes políticos e econômicos que lucram com a exploração de recursos naturais, e as ameaças provocadas por reportagens investigativas fazem parte da realidade cotidiana desses profissionais. Para as mulheres jornalistas, porém, o desafio é ainda maior.
"Somos intimidadas todos os dias. Muitas vezes somos impedidas de ir a campo e de contar determinadas histórias", disse Taina Rio Negro, jornalista independente de Manaus, capital do estado do Amazonas. Maíra Soares, repórter freelancer baseada em Imperatriz, no Maranhão, disse à RSF que "como mulher jornalista, você precisa permanecer vigilante o tempo todo em relação à pauta em que está trabalhando".
A jornalista freelancer Ariene Susui, indígena do povo Wapichana, começa o dia com cautela, mesmo antes de sair de casa. "Toda vez que vou a campo, não posso, por exemplo, usar acessórios indígenas, pois isso me colocaria em um risco ainda maior." A jornalista afirma que tenta passar despercebida o máximo possível para garantir um nível mínimo de segurança e sempre avalia se determinada pauta realmente vale o risco.
Essa pressão extrema não é nova. No início da década de 1990, Kátia Brasil foi obrigada a deixar o estado de Roraima após receber uma ameaça de morte relacionada à uma investigação sobre o assassinato de um advogado. A jornalista também se lembra de quando mulheres jornalistas foram duramente atacadas durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro. Na época, a jornalista e sua sócia foram alvo de uma campanha de ódio online realizada por apoiadores de Bolsonaro após a publicação de uma reportagem sobre o impacto da COVID-19 em territórios indígenas.
Além do assédio que repórteres mulheres no Brasil frequentemente enfrentam ao falar com fontes e dos ataques online e offline de pessoas insatisfeitas com suas reportagens críticas, a misoginia muitas vezes também se estende às redações. "Ainda existe muito preconceito nas redações. Se você entrar nelas, verá pouquíssimas mulheres como editoras-chefes, diretoras ou proprietárias de jornais", afirma Kátia.
Apesar das adversidades vindas de todos os lados, mulheres jornalistas em toda a Amazôniacontinuam documentando a destruição ambiental e violações de direitos humanos, desempenhando um papel crucial ao informar o público e defender um dos ecossistemas mais estratégicos do mundo. Para Kátia, proteger os jornalistas que trabalham na região é essencial. "Quando matam um jornalista da Amazônia, matam a única via que pode contar a história de uma comunidade inteira".
O compromisso da RSF com mulheres jornalistas na Amazônia
Como parte de seu compromisso de fortalecer o jornalismo ambiental na região, a RSF realizou um encontro em Manaus nos dias 2 e 3 de março com sete jovens jornalistas que participam do programa de mentoria da organização para cobertura ambiental na Amazônia. O evento reuniu repórteres de diferentes territórios da Amazônia brasileira para trocar experiências, discutir estratégias de segurança e aprofundar seus conhecimentos técnicos sobre cobertura ambiental.
O encontro fez parte de uma iniciativa mais ampla da RSF voltada ao fortalecimento das habilidades profissionais, à melhoria dos mecanismos de proteção e ao apoio à qualidade do jornalismo ambiental na região. Ao investir em treinamento e mentoria para mulheres jornalistas, a RSF busca garantir que aquelas que documentam conflitos ambientais e desafios climáticos na Amazônia possam continuar informando o público sobre essa região vital de forma segura e eficaz.
A RSF destacou a situação crítica do jornalismo ambiental e a resposta insuficiente das autoridades brasileiras em seu relatório, "Amazônia: Jornalismo em Chamas". Esses ataques incluem ameaças de morte, violência física, ataques armados e assédio judicial. Até que medidas de proteção eficazes sejam plenamente implementadas, muitos jornalistas - especialmente mulheres jornalistas - continuarão em risco.