Presidency of the Portuguese Republic

05/27/2026 | Press release | Distributed by Public on 05/27/2026 14:02

Intervenção na Cerimónia oficial de abertura da 96.ª Feira do Livro de Lisboa

No ciclo dos grandes acontecimentos anuais, a Feira do Livro de Lisboa está prestes a completar um século de existência. Salvo raras exceções, não houve final de primavera que não contasse com livros espalhados e festejados pela cidade - faz parte do calendário. Do nosso calendário de leitores - e do vosso calendário de editores e de autores.

Já a vimos decorrer em abril e maio; apenas em maio; apenas em junho; mas sobretudo em maio e junho - e, por motivos pouco felizes (porque era a pandemia), entre agosto e setembro. Recordo esses meses de silêncio e de livrarias fechadas com um sentimento de tristeza e amargura, mas recordo também como foram felizes o dia da reabertura das livrarias, e o dia do regresso da feira do livro de Lisboa, a 27 de agosto desse ano de 2020.

Seis anos depois, ao observar a extensão da Feira, a sua dimensão, bem como o previsto crescimento para este ano, que confirmou a tendência dos anos anteriores, temos razões para algum otimismo.

Mas hoje não é a altura para essa reflexão, que é bem necessária, sobre como aumentar o número de leitores e de bons leitores, ou como fomentar hábitos de leitura a partir da escola ou das pequenas bibliotecas de família.

As inquietações sobre a oscilação dos números da literacia, sobre o impacto da Inteligência Artificial, sobre a mil vezes anunciada crise da leitura, merecem uma discussão muito séria, com números e factos reais, e com o envolvimento de todos nós.

Todos nós, ou seja, todos os que acham que a leitura (e essencialmente a leitura de livros) é um dos pilares de uma sociedade democrática, informada, preparada para os desafios do tempo e ciente de que uma comunidade que não valoriza a leitura, a partilha de histórias e de conhecimento, é uma sociedade que se empobrece a si própria. Que escolhe empobrecer. Que escolhe substituir o debate de ideias pela obediência a algoritmos. Que escolhe a velocidade contra a ponderação e a experiência humana. Que escolhe a aceitação contra a liberdade.

Neste aspeto, vós, editores, livreiros, alfarrabistas, distribuidores, fundações e parceiros culturais, mereceis uma palavra de elogio: está feita a vossa parte; há livros no Parque, por onde circularão milhares de leitores e, espero, milhares de livros acabados de autografar pelos seus autores. Solitários ou em família, cautelosos ou eufóricos, como é a nossa condição de leitores, milhares de pessoas devolvem-nos o espírito da festa. Para ela, todos vós contribuíram com os melhores dos vossos livros.

É por isso que esta feira constitui um catálogo da edição portuguesa, mas também da nossa memória. Não só porque um livro é um objeto carregado de memórias, mas porque muitos de nós hão-de procurar livros para formar a sua biblioteca ideal, autores que não puderam ler antes, e também livros esquecidos - ou que não sabiam que existiam.

A história da cultura de um país avalia-se, também, pela vida e pela importância dos seus editores e livreiros. É um pormenor pouco tratado na história da literatura portuguesa. Sem editores e livreiros essa história teria sido diferente. Sem as escolhas dos editores, que arriscaram bolsa e prestígio para publicar os autores que hoje designamos "mestres da nossa língua", ou "guardiões da nossa memória", essa história teria sido diferente - e vale sempre a pena recordá-lo. E deixar uma palavra de reconhecimento.

Os livros são uma das mais perfeitas invenções da humanidade. Em argila ou em pergaminho, em bambu ou em papiro, copiado à mão ou impresso em caracteres móveis, o livro prolongou a nossa memória e transformou-a em história, em arte e em monumento. A sua perfeição chegou ao que é hoje, acompanhada do cheiro do papel e da tinta.

Talvez no futuro esta forma de livro seja ultrapassada, mas seria uma pena que fosse abandonada - até porque colocaria em risco a feira do livro no Parque Eduardo VII para anualmente celebrarmos o verão antecipado. Colocaria em risco a minha coleção de lápis, com que sublinho os livros. Colocaria em risco a ideia de que os livros renascem das cinzas quando alguém quer queimá-los - e não simplesmente apagá-los. Colocaria em risco parte essencial e amável da nossa humanidade, ou da forma como somos e aprendemos a ser humanos.

A história do livro é a história de uma resistência permanente contra o esquecimento e contra a ideia de uma sociedade sem histórias. É por isso que, todos os anos, esta Feira é muito mais e deve ser muito mais do que uma mostra da vitalidade da indústria editorial.

Como todos sabemos, é uma prova dessa resistência. É por isso que aqui estamos. É também por isso que nos voltaremos a encontrar em setembro, em Belém, na Festa do Livro.

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