09/01/2026 | News release | Distributed by Public on 09/01/2026 08:35
Durante três dias, a praça Franz-Mehring ganhou outra vida. Cerca de 5 mil pessoas passaram pelo UZ-Friedenstage, em Berlim, circulando entre palcos, salas de debates, barracas, exposições, livros, comida, música e encontros políticos. Mais do que a sucessão de atividades, o que fica da festa é sua capacidade de transformar política em convivência comunitária e solidariedade internacional.
O encontro dá continuidade a uma tradição iniciada em 1974 com o UZ-Pressefest. Realizada a cada dois anos, a festa atravessou mais de meio século, mudou de formato e ganhou o nome UZ-Friedenstage, mas preservou uma cultura política que pode ser encontrada em outros festivais internacionais da esquerda e dos partidos comunistas. Mudam o tamanho, os recursos e as características de cada país, mas permanecem uma linguagem comum, palcos, debates, barracas de partidos e organizações, delegações internacionais, livros, comida, bebida, cultura, solidariedade e muita conversa.
Não se vai apenas para assistir a um debate ou a um show. Passa-se o dia na festa. Grandes mesas comunitárias espalhadas pelo espaço permanecem ocupadas. É nelas que se come, se bebe, se descansa e, sobretudo, se conversa. Muitas discussões iniciadas nos auditórios continuam ali de maneira informal.
Há um espaço especialmente dedicado às crianças, com atividades próprias ao longo da programação, permitindo que as famílias permaneçam durante todo o dia. Crianças brincam enquanto, a poucos metros, acontecem debates e apresentações musicais. Chama atenção também a quantidade de jovens. Eles estão na organização, nas atividades, diante dos palcos, nas barracas e nas mesas, convivendo com militantes que atravessaram diferentes períodos da história alemã.
O velho estereótipo dos alemães frios e distantes nada tem a ver com nossos anfitriões. A recepção é calorosa, as conversas atravessam as mesas e continuam depois das atividades, há reencontros, brincadeiras e disposição para acolher quem chega. Mesmo quando o idioma dificulta, encontra-se um jeito de conversar.
Essa simplicidade aparece também entre os dirigentes. Lideranças do DKP (Deutsche Kommunistische Partei) e representantes das 21 delegações internacionais circulam com seus pares sem grandes protocolos. Comem nas mesmas barracas, sentam-se às mesas comunitárias e acompanham os shows. Encontros internacionais acontecem tanto em reuniões bilaterais quanto diante de uma barraca ou durante uma refeição.
Mapa político e gastronômico
Foto: Tiago AlvesAs barracas formam um pequeno mapa político e gastronômico da festa. Partidos, organizações sociais e movimentos de solidariedade apresentam jornais, campanhas, bandeiras, camisetas e materiais políticos. Ao lado deles, salada de batatas com maionese, salsichas das mais variadas, cuscuz marroquino, kebab, opções vegetarianas, frutas e tortas de maçã. Mostarda e maionese aparecem em abundância.
As salsichas alemãs parecem obedecer a uma regra local bastante objetiva, precisam ser consideravelmente maiores que o pão que as acompanha. Há também diferenças culturais que nem décadas de internacionalismo conseguiram resolver. Uma delas é a temperatura da cerveja, perigosamente próxima, para os padrões brasileiros, da temperatura ambiente. Nada que prejudique a confraternização.
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A cultura atravessa toda a programação. Há feira e lançamentos de livros, cinema, espaços com CDs e DVDs e uma lojinha que funciona como vitrine do encontro, com camisetas, agasalhos e outros produtos. A fotografia tem presença importante, com diversas exposições e coletivos de fotógrafos espalhados pelo festival. No interior do prédio, uma exposição recupera a história do Neues Deutschland, jornal que teve naquele complexo sua sede durante os tempos da DDR. Fotografias ajudam a contar não apenas a trajetória de uma publicação, mas também parte da história política e social da antiga Alemanha Oriental.
Música e mais música
A música praticamente não para. A primeira noite foi dedicada à música cubana, antecipando pela cultura a forte presença que a solidariedade a Cuba teria durante todo o encontro. Ao longo dos dias, músicos entoaram canções revolucionárias de diferentes países e épocas, passando pela Rússia, pelo Chile, Alemanha e chegando a Portugal.
No segundo dia, um dos destaques foi a italiana Banda Bassotti, grupo conhecido por sua trajetória antifascista e de solidariedade internacional. A banda passou sete meses na região do Donbass, realizando shows e participando de ações de solidariedade junto à população local. A experiência ajuda a entender o lugar ocupado pela música no UZ-Friedenstage. Ela não funciona como intervalo da política. É parte dela.
Solidariedade internacionalista
Foto: Tiago AlvesA solidariedade internacional está também impressa na paisagem. A Palestina aparece por toda parte, nas bandeiras, cartazes, barracas, materiais políticos e nas muitas camisetas vestidas pelo público. A causa palestina transborda das salas de debate e ocupa visualmente a festa.
Cuba ganhou um espaço especialmente dedicado à solidariedade com a ilha. Além da primeira noite de música cubana, havia um espaço dedicado com inclusive uma barraca preparando mojitos. Política, cultura e convivência voltam a se misturar. A solidariedade pode aparecer em uma manifestação no palco, em uma camiseta palestina ou numa conversa diante de um mojito cubano.
A presença de 21 delegações internacionais reforçou esse caráter. No palco central, representantes estrangeiros foram chamados para saudar o público, com Cuba ocupando lugar especial na manifestação de solidariedade. Ao final, A Internacional foi cantada em diferentes idiomas.
Nem todas as divergências ficam do lado de fora. Uma atividade relacionada à Rússia precisou acontecer fora do ambiente da festa. Segundo os organizadores, a mudança ocorreu por causa de tensões com outras organizações que também ocupam o prédio e de um ambiente que classificam como marcado por russofobia. O episódio mostra como as diferenças sobre Rússia, Ucrânia, guerra e militarização atravessam também setores progressistas e da esquerda alemã.
Luta pela paz
A paz foi o grande eixo político dos três dias. O rearmamento da Alemanha, o crescimento dos gastos militares, as guerras, a Palestina e o serviço militar obrigatório apareceram repetidamente. Um dos desafios colocados é aproximar o movimento pela paz dos movimentos sindical e estudantil.
Entre os estudantes, essa discussão já saiu dos auditórios. Uma ampla campanha contra o alistamento e o serviço militar obrigatório vem conquistando adesão e promovendo grandes paralisações. É uma mobilização que ajuda a compreender a forte presença juvenil no UZ-Friedenstage. Uma geração diretamente atingida pela possibilidade de militarização encontra na festa espaço para discutir seu próprio futuro.
Memória e resistência
Foto: Tiago AlvesA memória está por toda parte, mas não significa viver apenas do passado. Aparece nas fotografias, nos livros, nos CDs e DVDs, nas canções revolucionárias, nos símbolos, nas camisetas e, principalmente, no encontro entre gerações.
Há algo de resistência também no próprio papel. Em diferentes festivais internacionais, jornais continuam no coração desses encontros. Na Alemanha, o Unsere Zeit. Em Portugal, o Avante!. Na França, o L'Humanité. Na Espanha, onde a festa leva o nome do Partido Comunista, o Mundo Obrero ocupa lugar importante.
Mesmo diante das redes sociais, das plataformas digitais, das mudanças nos hábitos de leitura e da redução das tiragens, os jornais impressos resistem. No UZ-Friedenstage, o Unsere Zeit está nas mãos dos militantes, nas bancas e chega semanalmente à casa de seus assinantes.
Talvez jornais e festas estejam tão ligados porque cumprem funções complementares. A festa transforma em comunidade aquilo que o jornal procura construir entre seus leitores. O jornal ajuda a manter essa comunidade ligada quando as barracas são desmontadas, os palcos silenciam e cada um volta para sua cidade.
O Brasil foi recebido com muito carinho e celebrado ao longo dos três dias. O interesse pelo governo Lula, pelas eleições de 2026, pelos BRICS e pelo papel brasileiro no mundo apareceu nas atividades formais, mas também nas conversas pelas barracas e mesas comunitárias. Esse carinho estava nos encontros, nos gestos e na maneira como a delegação brasileira era acolhida pelos anfitriões e pelas
Mesmo em um ano de eleições locais na Alemanha, a festa não é tratada como algo secundário diante das tarefas eleitorais. É vista como oportunidade para apresentar o partido, suas ideias e posições a um público mais amplo. As dificuldades políticas, financeiras e organizativas, em vez de justificarem o recuo, são encaradas como impulso para organizar a militância, ampliar a presença pública e disputar a sociedade.
Talvez esteja aí uma das explicações para a permanência dessa tradição bienal por mais de meio século. Festivais como esse transformam a militância em experiência coletiva. Durante alguns dias, a política deixa de ocupar apenas reuniões, sedes partidárias e auditórios. Passa pela música, pela comida, pelo cinema, pela fotografia, pelos livros, pelas crianças brincando, pelas mesas comunitárias, pela amizade e pela convivência entre gerações e nacionalidades.
Ao final dos três dias, uma velha frase parece resumir o que aconteceu em Berlim. Sem saber que era impossível, foi lá e fez.
Com recursos limitados e diante de uma conjuntura política adversa, os comunistas alemães colocaram de pé uma festa para cerca de 5 mil pessoas. O UZ-Friedenstage talvez encontre justamente aí uma de suas maiores forças, transformar dificuldades em impulso para continuar organizando, reunindo pessoas e fazendo.