HRW - Human Rights Watch Inc.

10/28/2026 | Press release | Distributed by Public on 10/27/2026 22:08

Brasil: Novas evidências de graves desvios de conduta da polícia na Operação Contenção

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Veja a descrição em texto desse vídeo

TEXTO NA TELA

28 de outubro de 2025

Rio de Janeiro, Brasil

NARRAÇÃO

Na manhã de 28 de outubro de 2025, centenas de policiais cercaram dois conjuntos no Rio de Janeiro.

Ao anoitecer, a operação se tornaria a mais letal da história do Brasil.

TEXTO NA TELA

AVISO. Este vídeo contém cenas fortes, incluindo imagens desfocadas de cadáveres. O conteúdo pode ser sensível para algumas pessoas.

NARRAÇÃO

122 pessoas foram mortas, incluindo dois adolescentes e cinco policiais.

De acordo com os laudos de necrópsia, mais de 85% das vítimas que não eram policiais eram negras.

O Supremo Tribunal Federal obrigou a polícia do Rio de Janeiro a usar câmeras corporais.

No entanto, apenas 23% dos policiais usavam câmeras no dia. Nenhuma morte foi gravada nas filmagens analisadas pela Human Rights Watch.

TERÇO INFERIOR

Damir Khairat

Pesquisador do

Laboratório de Investigações Digitais

NARRAÇÃO

A Human Rights Watch teve acesso à investigação do Ministério Público, incluindo 8.800 páginas de documentos, 122 laudos de necrópsia e quase 4.000 horas de gravações de câmeras corporais.

TEXTO NA TELA

O Ministério Público divulgou as imagens das câmeras corporais usadas neste vídeo. A grande maioria das filmagens às quais

a HRW teve acesso estão sobre sigilo e não podem ser publicadas.

NARRAÇÃO

Assistir a todas as imagens 24h por dia, sem nenhuma pausa, levaria quase seis meses para um único pesquisador. Por isso, treinamos diversos modelos de inteligência artificial para nos ajudar a identificar os momentos mais importantes.

Primeiro, precisávamos organizar tudo.

Os modelos, juntamente com um software desenvolvido pela Human Rights Watch, sincronizaram as gravações de diferentes policiais, mapearam suas localizações e identificaram tiros e sinais de manipulação das câmeras.

Depois, criamos uma plataforma com função de busca que nos permitiu visualizar a operação como um único evento coordenado, em vez de milhares de gravações separadas.

O que encontramos foram evidências de frequente manipulação e obstrução das câmeras corporais. E isso acontecia consistentemente no exato momento em que as câmeras deveriam estar gravando: durante prisões, tiroteios ou quando os policiais entravam em residências.

As autoridades disseram que o objetivo da operação era prender suspeitos de tráfico de drogas. As evidências que encontramos apontam para uma operação que parece ter sido concebida para ser letal.

Para explicar como chegamos a essa conclusão, vamos examinar alguns exemplos dos momentos que treinamos nossos modelos de IA para detectar.

A câmera de um policial capturou este vídeo em um beco enquanto um grande grupo de policiais passavam. Em seguida, o policial cobre sua câmera.

Ele ou outro policial então sinaliza que havia uma câmera gravando.

TRECHO DE ÁUDIO [EM PORTUGUÊS]

A equipe tá com câmera. A equipe tá com câmera. Não, não, to falando [inaudível] aquele negócio.

NARRAÇÃO

Não está claro por que ele a cobriu, mas o Ministério Público o denunciou por obstruir a câmera.

TRECHO DE ÁUDIO

Essa seria uma visão geral da operação.

NARRAÇÃO

Para identificar incidentes como esse em quase 4.000 horas de filmagens de cerca de 500 policiais, treinamos um modelo para detectar momentos semelhantes em que a câmera continuava gravando, mas a lente estava coberta.

Aqui vemos um policial arrombando a fechadura da porta de uma casa. Quando consegue abrir, retira a câmera do corpo por mais de uma hora, provavelmente enquanto está dentro da casa.

Como a câmera ainda estava captando imagens, o nosso software inicialmente não sinalizou essa gravação.

Por isso, treinamos um segundo modelo para identificar "cenas estagnadas", nas quais a gravação permanece a mesma por longos períodos.

À medida que nossos modelos aprendiam e se aperfeiçoavam, eles revelaram muitas lacunas suspeitas nas gravações.

No final, documentamos mais de 250 casos de obstrução de câmera.

Momentos como esses são exatamente as situações que as câmeras corporais deveriam gravar, ajudando a garantir que qualquer comportamento ilegal seja capturado e que as circunstâncias em torno das 122 mortes possam ser devidamente investigadas.

Outro modelo que utilizamos foi um sistema de IA que analisa o áudio para detectar tiros.

Depois de treiná-lo especificamente para as câmeras corporais da polícia do Rio e para as condições locais, o modelo detectou com sucesso a maioria dos tiros em um conjunto de vídeos de teste.

Também conseguimos usar a IA para extrair texto diretamente dos vídeos, como a data, a hora, o local e o número de identificação do policial que usava a câmera.

Mas uma das descobertas mais marcantes veio do que não vimos.

Apesar da magnitude da operação e do número de mortes, não encontramos nenhuma filmagem mostrando as mortes.

NARRAÇÃO

Para entender o que faltava, organizamos as gravações ao longo da operação usando os registros de data e hora das câmeras corporais.

TEXTO NA TELA

Filmagens inutilizáveis

Filmagens utilizáveis

NARRAÇÃO

Descobrimos que mais da metade das gravações havia terminado ou apresentava lacunas significativas ao meio-dia. A partir daí, as filmagens utilizáveis continuaram a diminuir, justamente quando a operação se tornou mais letal.

A ausência de filmagens, junto com numerosas evidências de manipulação das câmeras, sugere que as câmeras corporais foram deliberadamente utilizadas de forma indevida para impedir a gravação de mortes.

Ao longo da nossa investigação, a IA foi apenas uma ferramenta entre muitas.

Nossa equipe de pesquisadores entrevistou testemunhas no Rio, visitou o bairro onde os as mortes ocorreram, analisou registros policiais e laudos de necrópsia, verificou fotografias e vídeos e revisou manualmente as descobertas da IA.

O que a IA proporcionou foi velocidade e alcance.

Ela nos ajudou a processar milhares de horas de filmagens, conectar elementos de prova e concentrar nossa atenção onde era mais importante.

Em outras palavras, a IA nos ajudou a encontrar as agulhas em um palheiro gigantesco.

Agora, cabe à justiça brasileira investigar minuciosamente tanto as mortes quanto as decisões que levaram a uma operação tão letal.

Aqueles que usam força desproporcional ou fazem uso indevido de câmeras corporais deveriam ser responsabilizados.

Para saber mais sobre os eventos de 28 de outubro e as conclusões da Human Rights Watch, acesse HRW.org e leia nossa investigação, Uma estratégia de morte.

  • Policiais manipularam câmeras corporais e foram responsáveis por graves falhas na investigação durante uma operação com o suposto objetivo de prender membros do crime organizado no Complexo da Penha, em 28 de outubro de 2025.

  • Uma investigação de um ano conduzida pela Human Rights Watch concluiu que as forças policiais violaram decisões do Supremo Tribunal Federal e seus próprios protocolos durante a Operação Contenção, que parece ter sido concebida para ser letal.

  • O Ministério Público Federal e o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro deveriam instaurar procedimentos criminais e civis para investigar os responsáveis por abusos, incluindo autoridades e comandantes da Polícia Militar e da Polícia Civil.

(Rio de Janeiro, 28 de outubro de 2026) - Policiais manipularam câmeras corporais e não adotaram medidas investigatórias cruciais durante a Operação Contenção no Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 2025, afirmou a Human Rights Watch em uma investigação publicada hoje. As evidências indicam que a polícia usou força excessiva e pode ter matado intencionalmente dezenas de homens e adolescentes.

A investigação, intitulada "'Uma estratégia de morte': Investigando a operação policial mais letal do Brasil", documenta a Operação Contenção, na qual um total de 122 pessoas foram mortas. Esse número inclui dois adolescentes e quatro policiais mortos naquele dia, além de um quinto policial que foi ferido e faleceu posteriormente. Outros dois homens foram mortos na madrugada, antes do início oficial da operação. Oitenta e cinco por cento das vítimas não policiais da operação de outubro de 2025 eram negras.

Investigando a operação policial mais letal do Brasil

Leia a investigação completa aqui

Nenhuma das mortes foi registrada nas milhares de horas de gravações de câmeras corporais enviadas pela Polícia Militar do Rio de Janeiro à Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, as quais a Human Rights Watch teve acesso e analisou.

"A Human Rights Watch acessou milhares de horas de filmagens de câmeras corporais e analisou vídeos gravados por moradores, os autos da investigação oficial e laudos de necrópsia de cada vítima; mas questões cruciais permanecem sem resposta porque a polícia não registrou adequadamente as mortes, não garantiu a preservação dos locais e não coletou informações essenciais", disse Sophia Jones, pesquisadora de fontes abertas do Laboratório de Investigações Digitais da Human Rights Watch. "As famílias das vítimas, incluindo dos policiais, merecem respostas e responsabilização por meio de uma investigação completa e independente".

A Human Rights Watch entrevistou 41 testemunhas, familiares e especialistas, e analisou 4.400 horas de imagens de câmeras corporais, 9.000 páginas do procedimento investigatório criminal, 122 laudos de exame de necrópsia, processos judiciais e centenas de vídeos e fotografias. A Human Rights Watch analisou os dados utilizando vários modelos de Inteligência Artificial desenvolvidos pela própria organização, com subsequente revisão e avaliação manuais por pesquisadores.

Com base em dados do GENI (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos), um centro de pesquisa da Universidade Federal Fluminense, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, e do Fogo Cruzado, a Operação Contenção foi a operação policial mais letal em um único dia já documentada, em um país onde as forças policiais matam mais de 6.000 pessoas a cada ano.

Pesquisadores da Human Rights Watch visitaram o Complexo da Penha seis meses após a operação e constataram que o Comando Vermelho, a facção criminosa que foi alvo da operação, continuava a impor seu domínio sobre os moradores.

O objetivo declarado da operação era cumprir 100 mandados de prisão contra supostos membros do Comando Vermelho. No entanto, os registros policiais mostram que a polícia prendeu apenas 17 pessoas com mandados de prisão em aberto, não estando claro quantos destes mandados estavam entre os 100 que justificaram a operação. A polícia não entrou na casa da principal liderança do Comando Vermelho na região, contra quem havia um mandado de prisão, segundo informou um comandante da Polícia Civil ao Ministério Público, embora filmagens de câmeras corporais mostrem policiais circulando ao redor da casa.

Apesar de uma lei estadual e decisões do Supremo Tribunal Federal obrigarem a polícia no Rio de Janeiro a usar câmeras corporais, apenas cerca de 23 por cento dos 2.500 policiais civis e militares que participaram da operação estavam com câmeras, informou o governo do Rio de Janeiro.

Como a Human Rights Watch utilizou Inteligência Artificial para analisar imagens de câmeras corporais da operação policial mais letal do Brasil

Leia a metodologia aqui

A análise da Human Rights Watch das filmagens dos 527 policiais militares que usavam as câmeras revelou frequente manipulação e obstrução durante o seu uso. Policiais deixaram as câmeras ligadas antes da operação, esgotando as baterias; cobriram as lentes; colocaram as câmeras em locais onde não captariam as ações dos policiais; e deixaram as câmeras nos veículos.

Essa manipulação ocorreu de forma consistente em momentos-chave, durante prisões, tiroteios ou enquanto os policiais entravam nas residências, constatou a Human Rights Watch. A maior parte da manipulação ocorreu nas câmeras usadas por policiais cujas unidades participavam de operações de linha de frente, como o Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (BOPE), unidade destacada para a região de mata onde ocorreu a maioria das mortes. Os pesquisadores da Human Rights Watch determinaram que em 36 por cento dos momentos em que houve um ou diversos tiros gravados pelas câmeras as lentes estavam obstruídas.

Imagens das câmeras corporais mostraram policiais agredindo e ameaçando matar detidos, incluindo um adolescente que foi forçado por policiais a se deitar ao lado de um cadáver enquanto o fotografavam. Em outra gravação, um policial diz aos colegas para atirarem nas pernas dos detidos caso eles fugissem. Em um terceiro vídeo, um policial expressou frustração pelo fato de as câmeras corporais os impedirem de matar suspeitos.

A Human Rights Watch também analisou centenas de vídeos e fotografias feitos por moradores da comunidade e outros no dia da operação. Em uma série de vídeos analisados, policiais empilham cadáveres, alguns com os órgãos genitais expostos, dentro de um veículo blindado da polícia, enquanto fazem comentários sádicos. "Olha que delícia", disse um policial. "A gente gosta disso."

Embora a polícia afirme que passou meses planejando a operação, não há evidências de que tenha realizado quaisquer preparativos para assegurar a preservação dos locais das mortes para realização de perícia. Além disso, a Polícia Civil não coletou informações básicas sobre 115 das 117 vítimas que não eram policiais, como por exemplo, os nomes dos policiais e dos moradores que levaram algumas delas ao hospital.

Apenas sete suspeitos foram levados a um hospital e posteriormente presos, em comparação com 117 pessoas mortas pela polícia. Essa proporção excepcionalmente alta entre mortos e feridos (17 para 1) levanta sérios questionamentos sobre se a polícia priorizou o uso de força letal em vez da prisão de suspeitos.

Uma análise dos laudos de exame de necrópsia das vítimas também aponta nessa direção. Mais de 40 por cento das vítimas que não eram policiais foram atingidas na cabeça, mais de 60 por cento foram baleadas quatro ou mais vezes, e quase 75 por cento receberam pelo menos um tiro nas costas. Um homem foi baleado e, em seguida, decapitado.

De acordo com peritos do Grupo Independente de Especialistas Forenses do Conselho Internacional de Reabilitação para Vítimas de Tortura, consultados pela Human Rights Watch, as evidências sugerem que muitas pessoas foram atingidas e mortas intencionalmente. Em muitos casos, a trajetória dos ferimentos por projetil de arma de fogo foi de baixo para cima, o que pode ser indicativo de execução, como quando um indivíduo é baleado enquanto está deitado ou de alguma forma incapacitado.

As autoridades brasileiras deveriam garantir uma investigação completa e independente sobre o planejamento e as decisões de comandantes das polícias e outras autoridades que resultaram numa operação tão letal. O novo governador do Rio de Janeiro, que assumirá o cargo em 6 de janeiro de 2027, deveria apresentar um projeto de lei para separar a perícia criminal da Polícia Civil.

"Nossa investigação mostra que a polícia desrespeitou a lei e seus próprios protocolos durante a desastrosa operação", disse César Muñoz, diretor da Human Rights Watch no Brasil. "Práticas policiais abusivas prejudicam a segurança pública, tornando as comunidades menos dispostas a colaborar com a polícia, ao mesmo tempo em que alimentam um ciclo de violência que coloca em risco tanto os moradores quanto os policiais. O Brasil precisa de novas estratégias de segurança pública que sejam eficazes e respeitem os direitos humanos."

HRW - Human Rights Watch Inc. published this content on October 28, 2026, and is solely responsible for the information contained herein. Distributed via Public Technologies (PUBT), unedited and unaltered, on October 28, 2026 at 04:08 UTC. If you believe the information included in the content is inaccurate or outdated and requires editing or removal, please contact us at [email protected]