Presidency of the Portuguese Republic

05/27/2026 | Press release | Distributed by Public on 05/27/2026 12:27

Intervenção na Sessão de encerramento do Festival ECO

Dez anos.
Dez anos a fazer jornalismo económico quando fazer jornalismo económico ficou mais difícil. Quando as receitas desapareceram, quando o algoritmo passou a ditar o que se lê e o que não se lê, quando a atenção se tornou a moeda mais escassa do mundo. O ECO fez o caminho que muitos não fizeram. E por isso estamos aqui hoje a assinalá-lo. Parabéns.

Vou aproveitar o vosso convite para falar de comunicação social. Não por cortesia, mas sim por convicção.

A comunicação social é um pilar das democracias. Sem jornalismo livre não há escrutínio do poder, não há debate de qualidade, não há cidadãos com a informação de que precisam para decidir bem. E esse pilar está sob pressão como nunca esteve desde que me conheço.

Primeiro vieram as redes sociais. Fragmentaram as audiências, destruíram os modelos de negócio que tinham durado um século, e entregaram a curadoria da informação a algoritmos que não distinguem verdade de mentira, mas distinguem muito bem o que provoca emoção do que informa com rigor. E privilegiam, sistematicamente, a emoção.
Agora chegou a inteligência artificial. Com a capacidade de produzir conteúdo em escala industrial. De simular vozes. De fabricar imagens. De personalizar a desinformação para cada pessoa, individualmente, com uma precisão que nenhum propagandista da história teve ao seu dispor.
Tudo isto coloca-nos perante o desafio de perda de audiências diretas e de receitas diretas dos jornais, rádios e televisões. E, sem receitas de qualidade é muito mais difícil fazer jornalismo de qualidade.

Este é o momento de lembrar o escritor Milan Kundera que, ainda antes da Internet se ter generalizado, nos alertou para que a velocidade está ligada ao esquecimento. E o que estas tecnologias fazem, acima de tudo, é acelerar. Acelerar o consumo, acelerar a produção, acelerar o esquecimento.

O jornalismo que sobreviver a esta transformação terá de ser mais humano, não menos. Mais lento quando a velocidade distorce. Mais contextualizado quando a fragmentação desorienta. Mais capaz de dar sentido ao que acontece e não apenas de reportar que aconteceu.

Hoje o jornalismo não compete só com o jornalismo. Compete com tudo. A resposta não pode ser baixar o padrão. Tem de ser elevar a ambição. O ECO sabe isso. Este festival é prova disso. E o país tem de decidir o que quer fazer para ter jornalismo livre e plural. Também aqui o tempo é de ação. A qualidade da nossa democracia também depende da qualidade do jornalismo que é feito.

Mas não vim só falar de comunicação social. Vim falar de um desafio diferente. Mais profundo.
Vim falar de cultura. De mentalidade. De mudanças.

De mudanças que precisamos para construir o futuro que desejamos.
O país bom para viver e para trabalhar. O país justo e de excelência que todos gostaríamos de ter.

A primeira é mudança está na construção de uma cultura de confiança.
Perguntamo-nos porque é que Portugal tem poucas grandes empresas. Porque é que as associações sectoriais raramente funcionam. Porque é que tantos projetos coletivos morrem antes de dar o primeiro passo.

Os dados têm uma resposta incómoda. Os portugueses confiam menos uns nos outros do que os cidadãos da maioria dos países europeus. O capital social, essa confiança de fundo que permite às pessoas trabalhar juntas, investir juntas, arriscar juntas, ajudarem-se mutuamente, é em Portugal estruturalmente baixo.

Os países que crescem de forma sustentada, que têm mais empresas, mais associações, mais projetos coletivos bem-sucedidos, têm algo em comum: os seus cidadãos confiam uns nos outros. Confiam nas instituições. Arriscam juntos porque acreditam que os outros vão cumprir a sua parte.

Com confiança, há parcerias.
Com parcerias, há escala.
Com escala, há competitividade.

E com competitividade, há futuro económico e entreajuda social.
Isto não se constrói com uma lei. Constrói-se com exemplos. Com lideranças que cumprem o que prometem. Com instituições que funcionam de forma consistente e que por isso merecem a confiança que pedem. É lento. É difícil. Mas é a primeira mudança de que precisamos.

A segunda mudança tem a ver com a nossa cultura política.
Em Portugal, quando algo corre mal, a primeira pergunta é sempre: quem tem a culpa? A resposta chega imediatamente. Os outros. O Governo. A oposição. A Europa. O mercado. A história.

Este jogo de culpas é um desperdício monumental de energia, de tempo e de recursos. De tudo aquilo de que precisamos para perceber a causa dos problemas e resolvê-los.

Nas nossas vidas pessoais não agimos assim. Quando algo corre mal, não passamos anos a estabelecer responsabilidades. Procuramos a causa. Desenhamos a solução. Avançamos. Na vida coletiva fazemos o oposto. E depois admiramo-nos que as coisas não mudem.

E tenho de dizê-lo nesta sala, a vós que fazeis jornalismo: os meios de comunicação têm aqui uma responsabilidade que não podem esquivar. Não porque sejam os culpados, não o são. Mas porque o modelo de cobertura que privilegia o conflito sobre o conteúdo, a troca de acusações sobre a análise, amplifica exatamente a dinâmica que nos paralisa. O jornalismo pode ser parte do problema. E pode ser, como o ECO tantas vezes é, parte da solução. A escolha existe. E é feita todos os dias.

A terceira mudança é a mais transversal. É uma cultura de organização.
Portugal tem uma capacidade extraordinária de improviso. Genuína. Admirável. Que já nos salvou em momentos muito difíceis. Mas o improviso tem um limite preciso. Só reduz o caos e atenua a perda.

Não constrói futuros.

Os futuros constroem-se com método. Com planeamento. Com instituições que funcionam de forma consistente, independentemente de quem está na liderança. Com uma cultura em que a organização não é vista como burocracia, mas como respeito pelo trabalho dos outros, pelo tempo de todos, pelo resultado que queremos alcançar juntos.
Temos uma cultura de desorganização e de desarticulação que nenhum improviso compensa. E isso tem um custo que raramente contabilizamos: projetos que não acontecem, investimentos que não chegam, talentos que partem porque não encontram aqui a previsibilidade de que precisam para construir.

Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Somos um país que sempre ambicionou um futuro melhor. Sempre fomos assim e, ao longo da nossa história, muitas vezes conseguimos chegar lá. Fizemo-lo sempre da mesma forma. Mudando a forma de olhar para os problemas. Percebendo que importa mudar algo em nós, na nossa maneira de fazer as coisas, para mudar o país.

Como escreveu Camões, as coisas árduas e lustrosas alcançam-se com trabalho e fadiga.
Não vos trago a promessa de que é fácil.
Trago-vos a certeza de que é possível.

Confiar. Focar na solução. Organizar.

Três mudanças. Nenhuma delas nova.
Todas elas nossas.

O país que queremos não nos vai acontecer. Temos de o fazer acontecer.
Com o melhor de cada um de nós. Com o melhor de todos nós.

Muito obrigado.

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