IPEA - Institute of Applied Economic Research

11/03/2026 | Press release | Distributed by Public on 11/03/2026 14:13

Revista do Ipea reúne estudos sobre os desafios da paz e da cooperação no Atlântico Sul

Em um cenário de intensificação das disputas geopolíticas e de crescente importância estratégica dos oceanos, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lançou o número 41 da Revista Tempo do Mundo (RTM), dedicado aos desafios contemporâneos da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas). A publicação foi apresentada na última terça-feira, 27 de outubro, data em que a iniciativa completou 40 anos de sua aprovação pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1986, por iniciativa do Brasil. Com mais de 600 páginas, a edição reúne 20 artigos assinados por 44 autoras e autores de universidades, centros de pesquisa, instituições de defesa e entidades acadêmicas do Brasil e do exterior.

O dossiê "O Atlântico Sul entre paz, cooperação e segurança marítima", coordenado por Gladys Teresita Lechini, da Universidade Nacional de Rosario, na Argentina, e Luiz Marcelo Michelon Zardo, do Ipea, examina a trajetória da Zopacas e as possibilidades de ampliar a cooperação entre os países da América do Sul e da África. Criada para promover a paz, a cooperação e o desenvolvimento regional, a iniciativa buscou inicialmente preservar o Atlântico Sul da militarização e da proliferação nuclear. Ao longo das décadas, sua agenda passou a abranger também segurança marítima, governança oceânica, sustentabilidade ambiental, economia azul, cooperação científica, combate aos ilícitos transnacionais e desenvolvimento regional.

Durante a abertura do evento de lançamento, o editor da Revista Tempo do Mundo, Pedro Silva Barros, destacou a relevância de retomar o debate sobre a Zopacas em um momento de tensões entre grandes potências e de disputa por recursos naturais. Segundo ele, a importância estratégica do Atlântico Sul exige aprofundar as relações entre os países da região e transformar o interesse renovado pela iniciativa em ações concretas.

"Essa relação no Atlântico Sul, a articulação e a importância que tem para a nossa estabilidade, o nosso entorno estratégico e a relação com a África demandam novos engajamentos, articulações e aprofundamento da discussão e das ações governamentais", afirmou Barros.

Cooperação regional diante das disputas internacionais

A competição por recursos naturais, energia, biodiversidade, infraestrutura crítica e rotas marítimas amplia a importância estratégica do Atlântico Sul. Nesse contexto, os artigos reunidos no dossiê discutem como a cooperação entre os países sul-americanos e africanos pode contribuir para fortalecer a soberania regional, ampliar capacidades institucionais e promover o desenvolvimento compartilhado.

Os trabalhos também abordam os limites e as possibilidades de atuação da Zopacas diante das transformações no cenário internacional. Entre as questões examinadas estão a presença de potências extrarregionais na costa africana, os desafios de coordenação política e institucional e a necessidade de transformar compromissos diplomáticos em iniciativas concretas de cooperação.

A publicação também contribui para refletir sobre a capacidade de articulação dos países integrantes da iniciativa. Quatro décadas após sua criação, a Zopacas permanece como um espaço de concertação regional, mas o aprofundamento de sua atuação depende do fortalecimento dos mecanismos de diálogo e da construção de objetivos comuns.

Segurança marítima e proteção dos oceanos

A governança dos oceanos ocupa lugar central na agenda contemporânea da Zopacas. Os artigos discutem possibilidades de cooperação em áreas como segurança marítima, pesquisa científica, conservação da biodiversidade, proteção ambiental e gestão sustentável dos recursos marinhos.

Na abertura do seminário, o contra-almirante Jefferson Denis Cruz de Medeiros, coordenador acadêmico da Escola Superior de Defesa, ressaltou o papel do Atlântico Sul na aproximação entre os países sul-americanos e africanos. Para ele, os vínculos históricos e culturais entre as duas regiões podem contribuir para aprofundar a cooperação, especialmente em questões relacionadas ao espaço marítimo.

Ao abordar experiências de colaboração na área de segurança, Medeiros mencionou a aproximação brasileira com países do Golfo da Guiné em atividades de combate ao crime, além da cooperação com parceiros regionais, como Uruguai e Argentina, em iniciativas relacionadas à segurança marítima. "Então o Atlântico Sul se mostrou esse espaço de concertação", afirmou.

Entre os temas abordados no dossiê está também a articulação entre as iniciativas brasileiras Amazônia Azul e argentinas Pampa Azul, com foco em oportunidades de colaboração na pesquisa marinha, na proteção de áreas oceânicas e na conservação da biodiversidade. A edição contempla ainda o planejamento espacial marinho e os desafios de conciliar interesses econômicos, ambientais e estratégicos no uso dos oceanos.

Essas discussões ampliam o entendimento da cooperação no Atlântico Sul para além das questões tradicionais de defesa, incorporando temas relacionados à sustentabilidade, à ciência e ao desenvolvimento.

Comércio e segurança econômica no Atlântico Sul

A dimensão econômica também integra as análises do dossiê. Um dos artigos examina os fluxos de exportação de produtos agroalimentares brasileiros para os países africanos integrantes da Zopacas entre 2017 e 2025. No período analisado, as exportações alcançaram uma média anual de aproximadamente 5,39 bilhões de quilos líquidos.

A Nigéria foi o principal destino, com participação média de 31,4% do volume exportado, seguida pela África do Sul, com 12,3%, e por Angola, com 9,6%. O estudo relaciona esses fluxos à segurança econômica no Atlântico Sul e chama a atenção para a importância das relações comerciais entre os países da região.

A análise evidencia que a cooperação no Atlântico Sul também envolve oportunidades e vulnerabilidades econômicas, além de questões de defesa e segurança marítima. Ao reunir pesquisas sobre essas diferentes dimensões, a edição oferece um panorama das possibilidades de aprofundamento das relações entre os países sul-americanos e africanos.

A relação entre paz e desenvolvimento foi outro ponto destacado pela presidenta do Ipea, Luciana Mendes Santos Servo, durante a abertura. Ela ressaltou que o desenvolvimento não se limita ao crescimento econômico, mas envolve também inclusão e sustentabilidade. Nesse sentido, a promoção da paz é uma condição importante para que os países avancem em diferentes dimensões do desenvolvimento.

"É muito complexo você pensar em desenvolvimento em ambientes onde a paz não seja um dos eixos estruturantes", afirmou Servo.

A presidenta também destacou a contribuição da Revista Tempo do Mundo para aproximar a produção de conhecimento dos debates sobre políticas públicas. Segundo ela, a publicação permite colocar em discussão temas relevantes para a agenda internacional, inclusive aqueles que ainda não foram incorporados de forma consistente às estratégias de atuação do Estado.

Revitalização da Zopacas após quatro décadas

O lançamento do dossiê ocorre em um momento de renovação da agenda da Zopacas. As reuniões ministeriais realizadas em Mindelo, em Cabo Verde, em 2023, e no Rio de Janeiro, em 2026, deram novo impulso ao fórum. Esse processo culminou na adoção da primeira Estratégia de Cooperação da organização, reforçando temas como governança oceânica, defesa, segurança marítima e desenvolvimento sustentável.

A edição da Revista Tempo do Mundo busca contribuir para esse processo ao reunir pesquisas sobre a trajetória da iniciativa, seus desafios institucionais e as possibilidades de ampliar a colaboração entre os países integrantes. A publicação também evidencia oportunidades para aprofundar a participação de instituições e pesquisadores africanos nas discussões sobre o futuro da cooperação no Atlântico Sul.

Servo ressaltou que identificar lacunas na produção de conhecimento e nas parcerias institucionais também faz parte do trabalho do Ipea. A ampliação do diálogo com os países africanos e o aprofundamento das pesquisas sobre oceanos, vias marítimas e rotas de integração estão entre as questões que podem orientar novas iniciativas de cooperação.

Ao completar 40 anos, a Zopacas permanece como referência para o debate sobre a preservação do Atlântico Sul como espaço de paz e cooperação. Os estudos reunidos no dossiê contribuem para discutir como fortalecer essa agenda diante das transformações geopolíticas e das demandas por desenvolvimento compartilhado.

Lançamento em Brasília

O lançamento da edição nº 41 da Revista Tempo do Mundo ocorreu durante seminário internacional promovido pela Escola Superior de Defesa e pelo Ipea, em Brasília. O evento reuniu autores do dossiê, pesquisadores e representantes de instituições acadêmicas e governamentais para discutir os desafios da paz, da cooperação e da segurança marítima no Atlântico Sul.

A programação incluiu ainda o lançamento do livro "25 anos de Integração Sul-Americana: Do Comunicado de Brasília ao Consenso de Brasília - Desenvolvimento, Autonomia e Desafios Contemporâneos", publicado em parceria pela Fundação Alexandre de Gusmão (Funag) e pelo Ipea.

Acesse o dossiê "O Atlântico Sul entre paz, cooperação e segurança marítima", na edição nº 41 da Revista Tempo do Mundo, no portal do Ipea.

Comunicação - Ipea

(61) 2026-5501

(21) 3515-8704 / (21) 3515-8578

Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

IPEA - Institute of Applied Economic Research published this content on November 03, 2026, and is solely responsible for the information contained herein. Distributed via Public Technologies (PUBT), unedited and unaltered, on November 03, 2026 at 20:13 UTC. If you believe the information included in the content is inaccurate or outdated and requires editing or removal, please contact us at [email protected]