06/04/2026 | Press release | Distributed by Public on 06/04/2026 15:00
No encerramento da primeira edição da Rio Nature & Climate Week (RNCW), realizada no Boulevard Olímpico, o ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, participou nesta quinta-feira (4) do painel de alto nível "A Liderança do Brasil em um mundo em transformação". Em um cenário que busca consolidar a capital fluminense como polo permanente de articulação entre governos, setor privado e sociedade civil, o ministro reforçou que a retomada da liderança climática brasileira é indissociável da garantia de direitos territoriais e da justiça climática.
Terena enfatizou que os avanços ambientais recentes do país não são fortuitos, mas fruto de uma "decisão política do governo brasileiro" e de um esforço coordenado entre o Estado e a sociedade civil. Ele destacou que a criação do Ministério dos Povos Indígenas marca uma ruptura histórica, transitando de um modelo de tutela para um de participação efetiva.
Nós conseguimos demonstrar ao mundo que é possível reduzir desmatamento, reduzir emissões e recolocar a pauta climática como prioridade de Estado", afirmou o ministro.
A fala do ministro ecoou as preocupações apresentadas na abertura da conferência pelo climatologista Carlos Nobre, que alertou sobre a urgência de proteger a população diante de eventos climáticos extremos. Para Terena, a resposta a esse desafio passa necessariamente pela valorização da "floresta em pé" e dos conhecimentos tradicionais. Ele defendeu que proteger os territórios indígenas é uma das estratégias climáticas mais eficientes, uma vez que essas áreas figuram entre as mais preservadas do país.
O ministro buscou alterar a percepção global sobre o papel das comunidades indígenas. "Eu costumo dizer que os Povos Indígenas não aparecem nesse debate apenas como grupos vulneráveis a serem protegidos", declarou, ressaltando que esses povos são, na verdade, protagonistas que oferecem soluções concretas de manejo sustentável e equilíbrio ecológico. Essa visão de protagonismo foi central no último dia do evento, que também contou com a presença da ativista equatoriana Patricia Gualinga em debates sobre direitos e governança.
A Amazônia registrou uma redução de 35% nos alertas de desmatamento entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, conforme dados do sistema Deter mencionados pelo ministro ao longo do painel. Além disso, o balanço da política territorial inclui 20 Terras Indígenas homologadas e processos de desintrusão realizados em 12 áreas críticas, como a Terra Indígena Yanomami.
Ao projetar o caminho para a Conferência do Clima da ONU, a COP 31, o ministro resgatou a simbologia do Mutirão, conceito brasileiro de esforço comunitário que tem guiado as negociações internacionais. Terena observou que, enquanto o consenso político enfraquece em partes do Norte Global, o Brasil e o Sul Global têm a oportunidade de moldar uma liderança baseada em experiências reais de biodiversidade e inclusão social.
"A transição para uma economia de baixo carbono não é mais apenas uma escolha política desejável, ela é uma necessidade histórica", explicou.
O debate também abordou as assimetrias no financiamento climático. O ministro criticou o fato de que uma parcela ínfima dos recursos globais chega efetivamente às organizações indígenas, apesar de seu papel reconhecido na proteção das florestas. Ele cobrou que as instituições internacionais e o setor privado democratizem sua governança e tratem a sustentabilidade como um compromisso real com direitos e transparência, e não apenas como agenda reputacional.
Para Terena, a verdadeira co-liderança exige que os povos indígenas participem da formulação das políticas desde o início, e não sejam meramente consultados ao final dos processos. Ele defendeu que essa inclusão amplia a qualidade democrática do Estado brasileiro ao ouvir quem historicamente protegeu as florestas e modos de vida.
Ao finalizar sua participação na Rio Nature & Climate Week, evento que também reuniu lideranças como André Corrêa do Lago e Ana Toni, presidente e CEO da COP 30, respectivamente, o ministro elevou o debate para uma esfera sistêmica. "Enfrentar a crise climática não é apenas uma questão ambiental. É uma discussão sobre democracia, sobre desenvolvimento e sobre qual futuro coletivo nós queremos construir", concluiu Eloy Terena.
Além das metas ambientais, Eloy Terena destacou o impacto transformador da ocupação de cargos estratégicos por lideranças indígenas, como na presidência da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e na Secretaria Nacional de Saúde Indígena (Sesai). Para o ministro, essa presença no âmbito do poder decisório possui uma função pedagógica, tanto para os povos indígenas quanto para a máquina pública, pois exige o exercício de um "duplo saber", ou seja, a aplicação de conhecimentos ancestrais e tradicionais para qualificar a burocracia, os símbolos e a rotina administrativa do Estado.
O ministro enfatizou que essa participação atende a uma reivindicação histórica do movimento indígena, que desde a década de 1970 luta para que as políticas públicas sejam pensadas e executadas pelos próprios povos. Como exemplo desse avanço, Terena citou a recente sanção da lei que cria a primeira universidade indígena do Brasil, um marco para que o saber tradicional dispute espaço no campo político e acadêmico.
"É a primeira vez que nós estamos sentados aqui podendo dialogar de igual para igual e fazendo a disputa do campo político", afirmou o ministro, referindo-se à necessidade de interlocução direta com pastas estratégicas. Segundo ele, consolidar essa presença na estrutura administrativa é fundamental para garantir que o Estado brasileiro nunca mais ignore o papel dos povos originários na construção do futuro do país.